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Cultura » As pernas mais belas do Olimpo do musical

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Luiz Carlos Merten

17 Junho 2008 | 23h45

Não sei se o cinema teve pernas mais bonitas do que as de Cyd Charisse. Não sei se as houve (houveram?) mais belas em toda a criação. Aquelas coxas mereceriam ser – e aliás foram – imortalizadas em números musicais memoráveis. Cyd Charisse morreu, aos 86 anos. Nasceu em Amarillo, no Texas, com um nome estranho (Tula Qualquer-coisa, Ellis ou Ellice, mas ainda havia um terceiro nome, tenho certeza). De formação clássica, ela estreou no cinema em 1943 e, no ano seguinte, já estava dançando num musical de George Sidney, ‘As Garçonetes de Harvey’, Em 46, ocorreu seu primeiro encontro com Vincente Minnelli, em ‘Quando as Nuvens Passam’, mesmo se o crédito de direção deste filme seja de Richard Whorf. Seus maiores momentos na tela foram em filmes de Minnelli, ou Stanley Donen. Lembram-se dela em ‘A Roda da Fortuna’ (The Band Wagon). Com Fred Astaire, Cyd caminha pelo Central Park e, de forma quase imperceptível, os passos vãop virando dança. A cena era a preferida de Santiago, e João Moreira Salles a utiliza em seu documentário – admirável – sobre o mordomo da família Salles. Santiago via ali um ideal de equilíbrio, de harmonia. Foram três ou quatro musicais com Minnelli – ‘Ziegfeld’, o citado ‘Roda da Fortuna’ e ‘A Lenda dos Beijos Perdidos’, mais três ou quatro com Donen, incluindo o número com Gene Kelly que homenageia o show bizz em ‘Cantando na Chuva’. Chama-se ‘Broadway Rhythm’ e tem um momento em que Cyd e Kelly dançam o que parece um sonho. Cyd Charisse ainda passeou aquelas pernas maravilhosas por ‘Meias de Seda’, de Rouben Mamoulián, e dançou numa breve cena de ‘O Agente Matt Helm’, de Phil Karlson, nos anos 60, numa das inúmeras imitações que o cinema fez das aventuras de 007. Com Gene Kelly, a dança era mais acrobática; com Fred Astaire, era mais refinada e elegante, mas, com um ou com outro, Cyd era melhor quanto mais simples, quanto mais essencial fosse a coreografia. E ela não foi só uma grande bailarina. Foi também, ouso dizer, uma grande, uma maravilhosa atriz. Só duvidará disso quem nunca viu o deslumbrante ‘A Bela do Bas-Fond’ (The Party Girl), de Nicholas Ray, improvável fusão de filme de gângster e musical, ou então ‘A Cidade dos Desiludidos’ (Two Weeks in Another Town), em que Minnelli voltou aos bastidores do próprio cinema, revisitando, de novo com Kirk Douglas e Edward G. Robinson, o universo que abordara em ‘Assim Estava Escrito’ (The Bad and the Beautiful). Cyd humanizava, neste filme, uma personagem perversa que outra atriz – e outro diretor – tornariam antipática, quem sabe insuportável para o público. Confesso que sua morte me entristece. Outro dia já li que Paul Newman está terminal de câncer. Estão se indo todos os mitos de Hollywood, fora os que já foram. Tudo bem – a jovem Cyd Charisse estará sempre viva, e bela, imortalizada no celulóide. nos grandes filmes de Minnelli. Mas a tragédia é aquela que Wim Wenders já focalizou em ‘Nick’s Movie – Lightning Over Water’. O cinema é signo de vida porque permite às coisas e pessoas continuarem existindo como imagem, muito tempo após seu desaparecimento. Mas ele também é signo de morte, porque na eterna repetição da mesma imagem está, intrínseca, a negação da vida. Tenho em casa vários musicais, mesmo não sendo o maior fã do gênero. Não tenho ‘Roda da Fortuna’ – nem mesmo o ‘Santiago’ – para rever Cyd e Astaire no Central Park. Posso apenas sonhar com aquelas imagens, repassá-las na lembrança. Cyd era exuberante, Astaire era franzino perto dela, até porque ambos deviam ter a mesma altura – isso, se ele não fosse um pouquinho menor. Que importa? Dançando eles fazem do meu, espero que do seu, do nosso imaginário.

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