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As muitas polêmicas de Pontecorvo

Luiz Carlos Merten

29 Março 2018 | 15h51

Fui ver agora pela manhã o filme de Malek Bensmail, A Batalha de Argel – Um Filme dentro da História. A cabine do É Tudo Verdade era no CCSP, mas eu fui ao CCBB, o que, se por um lado foi um contratempo, também me permitiu checar o sucesso da exposição de Basquiat. Ao chegar ao CCSP, o elevador não funcionava, o que me obrigou a enfrentar a dor descendo os degraus até a sala. M…! Relato minha via crúcis, mas é para acrescentar – valeu a pena. Nada se compara ao que sofreu o próprio Pontecorvo. Foi vilipendiado. O célebre travelling sobre Emmanuelle Riva, a judia que morre eletrificada no campo de extermínio de Kapò, foi considerado abjeto por Cahiers du Cinéma, desencadeando uma discussão sobre arte e ideologia, sobre o fascismo nos filmes, que atravessou décadas. O autor do texto, Jacques Rivette, dizia que quem faz aquele travelling merece o mais absoluto desprezo. Pontecorvo seguiu a trilha do cinema político. Fez A Batalha de Argel, e ganhou o Leão de Ouro em Veneza. Dirigiu Marlon Brando em Queimada! Após o 11 de Setembro, causou sensação a informação de que os analistas do Pentágono estavam usando A Batalha de Argel como ferramenta na luta contraterrorista. O filme de Bensmail dá conta da controvérsia desencadeada por A Batalha de Argel. Em Veneza, a crítica francesa caiu matando e rotulou o filme de antifrancês. No Brasil, a censura do regime cívico/militar colocou o filme no seu índex de obras proibidas. Bensmail, com base em depoimentos e documentos de época, evoca todo o processo de realização, as repercussões. Chega ao século 21 e promove, na sua parte final, uma discussão muito interessante com Eldridge Cleaver, antigo teórico/revolucionário do grupo Panteras Negras, e um estrategista do Pentágono justamente para tentar entender usos tão diferentes feitos sobre um mesmo filme. Uma obra que se pretende política, revolucionária, pode servir a propósitos contrarrevolucionários? Achei informativo sem ser didático, fascinante. Não é a mesma coisa, mas um pouco dessa discussão está em Imagens do Estado Novo, em que Eduardo Escorel usa material do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda de Getúlio Vargas, para uma leitura crítica do regime implantado no Brasil entre 1937 e 45, e que teve desdobramentos depois. Gostei de ter visto Um Filme dentro da História. Daqui a pouco estou indo ver Nada a Perder e, à noite, tenho o Rocco, no Cinesesc. São 4 da tarde e o dia ainda promete.