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Luiz Carlos Merten

31 Outubro 2006 | 15h55

Corri tanto por conta de entrevistas para matérias no jornal, que não tive tempo de postar nada e, assim, falo agora do Luzes da Escuridão, menos para sugerir que você veja hoje o filme do Aki Kaurismaki, cuja sessão já deve estar terminando (começou às 14 horas no Cine Bombril) e sim, para sugeri-lo para amanhã, às 19 horas, no Cinemark Santa Cruz 9. Os irmãos Kaurismaki, Aki e Kika, foram descobertos para o Brasil pela Mostra. Kika que me perdoe, mas Aki é melhor, ou faz um cinema que me interessa mais. Gostei muito de Homem sem Passado e, mesmo reconhecendo que Luzes segue tanto a premissa, o estilo do filme precedente que até parece uma seqüência, devo confessar que me agradou muito. Na verdade, trata-se do fecho da trilogia que Aki Kaurismaki começou com Nuvens Passageiros, sobre os párias da sociedade finlandesa. O herói é este guarda noturno que parece cão sem dono (e um cão, aliás, tem participação pequena, mas importante, na trama). Ele se envolve com uma loira fatal, é acusado de crime, vai parar na cadeia. Como o bressoniano herói de Pickpocket, ele vai ao inferno (à cadeia) para ser resgatado pelo amor, para descobrir qual é a mulher que o ama. Aki Kaurismaki presta aqui sua homenagem ao filme noir, para mim mais interessante que a do Brian De Palma em Dália Negra. É sempre surpreendente ver a Finlândia, país que não conheço e parece um cenário estilizado, desabitado, porque nos filmes as ruas são sempre desertas, com poucas pessoas e a mesma desolação que a gente encontra, por exemplo, nos quadros do Edward Hopper, com aquelas lanchonetes míticas e o neon que não brilha. Embora se trate, em princípio, de uma sociedade desenvolvida, os personagens que Aki escolhe são os excluídos, bêbados, os derrotados, gente que você encontra aqui mesmo, ali na esquina, caída no chão. Acho lindo quando entra no filme o Volver, que Almodóvar também usa no filme dele, mas acho que nada define melhor o estilo do diretor do que a cena em que os três caras passam falando sobre filosofia e literatura, na noite. A gente ouve trechos de afirmação, tudo rápido, furtivo. É como se fosse o rascunho de uma conversa, nada definitivo. Com outro diretor, talvez ficasse forçado, pretensioso. Aki faz as coisas com naturalidade.