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Cultura » As folhas verdes do verão

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Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2009 | 12h48

RIO – Tinha ontem um monte de filmes e entrevistas para fazer, as últimas, o que me obrigou a correr de um lado para outro, o dia todo. mas, pela manhã, não resisti, e mesmo sabendo que aquilo ia me atrasar, fui rever o comecinho de ‘Bastados Inglórios’, na sessão de imprensa. Este (Quentin) Tarantino é uma besta. Cancelou sua vinda ao Brasil e o Festival do Rio tem tudo a ver com ele. O Rio é Cannes dos festivais brasileiros – pelo glamour, pelo gigantismo, pela tietagem, pelo tapete vermelho. A Mostra de São Paulo, mal comparando, é a Berlinale. Séria, séria, séria. Não tem tapete vermelho, quer dizer, tem um tapetinho, estou falando de Berlim, que ninguém liga, por causa do frio. Digo isso sem nenhum preconxceito, porque amo a Berlinale. Já estou em contagem regressiva para a próxima. Tarantino já foi a Berlim? Não me lembro, pois ele reina no tapete vermelho cannois, ao qual dá preferência, naturalmente. Tarantino reinaria aqui, mas resiste a vir. Por que será? Feita a digressão, quero dizer que precisei me arrancar de dentro do cinema. Eu amo o capítulo inicial de ‘Bastardos’, o uso operístico, à Leone, que Tarantino faz da tradicional ‘The Green Leaves of Summer’, que Wilma Bentivegna cantava numa versão nacional que até hoje ecoa nos meus ouvidos – ‘Meu amor, como as folhas/Já mudou de estação/Hoje o inverno impera, em meu coração.’ Começa o segundo capítulo, que leva justamente o título de ‘Bastados Inglórios’. Brad Pitt discursa para a base do seu pelotão antinazista. O ângulo – o plongê – é o mesmo do discurso do major Reisman para os doze condenados de meu querido Robert Aldrich e até o timbre áspero da voz do sr. Jolie remete ao grande Lee Marvin. Vai ser interessante pensar um pouco, criticamente, o tema da vingança, que Tarantino explora em ‘Bastardos’. Eli Roth, o celerado diretor de ‘A Estalagem’, é ator no filme – e dirigiu, a pedido de Tarantino, as cenas do filme dentro do filme, a fuzilaria de Daniel Bruhl, quando abate aquela cidade inteira, na posição de atirador solitário, no alto da torre. Roth é judeu. Entrevistei-o e ele disse que, garoto, depois de saber do Holocausto, ficava remoendo vinganças contra Adolf Hitler, mas ele nunca teria coragem de fazer um filme como o do Tarantino. ‘Bastardos’ é obra de um cinéfilo. Tarantino pega carona em Aldrich, em J. Lee Thompson (‘Os Canhões de Navarone’) e Enzo G. Castellari, que lhe forneceu o título. Isso é óbvio. Mas, ontem, me peguei pensando em outras coisas. Quando o tenente Aldo Raine pressiona o nazista, dizendo que o Urso judeu vem chegando com seu taco de arrebentar cabeças de boches, a câmera se dirige para o preto das sombras daquela galeria subterrânea. As fossas Adeantinas, em Roma! O célebre massacre que virou filme de Luchino Visconti na resistência italiana. Tarantino filmou também a vingança dos resistentes italianos massacrados sob o pacto nazi-fascista? Queria ficar para (re)ver ‘Bastardos Inglórios’ até o fim, mas não deu. O filme estreia sexta. Já antecipo a polêmica. Até gosto de ‘Jackie Brown’, mas há quatro anos, quando a editora me propôs a reedição do meu livro ‘Um Zapping de Lumière a Tarantino’, preferi escrever outro porque estava bodeado com a evolução do autor de ‘Cães de Aluguel’ e ‘Tempo de Violência’. Quem diria que tão pouco tempo depois Tarantino estaria de novo polemizando? O cinema como metáfora – o filme é mais explosivo do que dinamite, assegura Tarantino… E o cara não veio para tornar essa discussão mais interessante!