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As diferentes faces do amor na seleção de Cannes

Luiz Carlos Merten

13 Abril 2017 | 10h02

OURO PRETO – Há um ano atrás estávamos, Dib Carneiro, Gabriel Villela, Cláudio Fontana e eu, nas comemorações da Semana Santa em Cusco, Peru. Este ano, cá estamos, no interior de Minas, para as procissões que o Gabriel, mineiro de carteirinha, garante serem belíssimas. Ouro Preto, cidade tombada, tem um encanto todo especial. Cá estive em junho ou julho passado, no festival de cinema da Universo. Ontem, chegamos e fomos ao mais antigo teatro da América para um recital de violoncelo. Havia um japonesinho que tocou Bach como deve ser tocado, com técnica e sentimento. Na apresentação, ele disse que queria compartilhar com a gente o perfume de Bach. Foi lindo! Fomos jantar e um amigo, sabendo por terceiros, que Gabriel estava na cidade, veio ao nosso encontro – o pintor Carlos Bracher. Que figura! Valeria a pena ter vindo só por aquele jantar regado a boa conversa. Logo ao chegar (a Minas), entrevistei por telefone Vincent Carelli, do Vídeo nas Aldeias e Martírio, para a matéria de hoje do Caderno 2.Leiam, e vejam o filme. Entrevistei também o Alan Minas, de A Família Dionti, que me tocou de um jeito muito especial. O menino que derrete de amor, o interior de Minas. Cataguases! E agora volto a Cannes, ao 70º festival. Arnaud Desplechin faz a abertura, fora de concurso, com Os Fantasmas de Ismael. Um cineasta, às vésperas de iniciar novo filme, reencontra um amor do passado. Mathieu Amalric, Louis Garrel, Marion Cotillard, Charlotte Gainsbourg – um elenco de sonho. Não vi e já gostei. Um punhado de habitués retorna à competição. Michael Haneke, na disputa por sua terceira Palma de Ouro – recebeu as anteriores pelos dois últimos filmes, O Balão Branco e Amor -, encara a má consciência europeia diante da crise dos refugiados, e muito bem acompanhado por Isabelle Huppert e Jean-Louis Trintignant. Só não creio muito no título – Happy end. Haneke? Só pode ser ironia. Desde que ouvi falar de The Beguiled, sonho com o novo filme de Sofia Coppola. A história é a mesma de O Estranho Que Nós Amamos, de Don Siegel, de 1971, com Clint Eastwood. Durante a Guerra Civil dos EUA, um soldado ferido abriga-se num internato de garotas e aí conhece um horror maior que a guerra – o descontrolado desejo de mulheres reprimidas. Colin Farrell substitui Clint, o que não me entusiasma muito, mas Kirsten Dunst (sempre, chez Sofia), Elle Fanning e Nicole Kidman são o supra-sumo do red carpet de Cannes. Outro filme que me atrai muito é Redoubtable, de Michael Hazanavicius, que narra o romance de Jean-Luc Godard (sim!) e Anne Wyazemski, tal como foi proposto por ela em livro. Hazanavicius, diretor de O Artista, salta do cinema silencioso para as barricadas de maio. E com quem? Louis Garrel, de novo no tapete vermelho, após a abertura com o Desplechin. E de novo no Maio de 68, após Amantes Constantes, que fez com o pai, Philippe Garrel. Todd Haynes é sempre um acontecimento em Cannes e, desta vez, ele volta com Wonderstruck, baseado num livro infantil, sobre duas crianças que vivem em diferentes épocas, 1927 e 77, mas cujas vidas de alguma forma vão se tocar. Não sou muito fã do grego Yorgos Lonthimos, de Lobster, mas o filme que o leva de volta a Cannes tem seus atrativos – o título (The Killing of a Royal Deer), o fato de se basear em Eurípedes e (esse tapete vermelho está ficando repetitivo) adivinhem com quem? Colin Farrell e Nicole Kidman! Vai ter Netflix na corrida pela Palma. Em Okja, o sul-coreano Bong Joon-ho mostra garota que tenta salvar seu melhor amigo de uma multinacional. O detalhe – o tal amigo é um animal gigantesco e, para o mundo, assustador. Também do Oriente vem o novo filme de Naomi Kawase, Radiance. Uma fotógrafa liga-se a um homem que está perdendo a visão e aprende a ver com ele o que era invisível para seus olhos. A japonesa Naomi é uma das autoras que, no cinema atual, melhor filmam o mistério, seja do mar, de uma floresta ou doença. Tudo nela é muito denso, profundo, e eu gosto. Mistério também deve haver em A Gentle Creature, que meu amado Sergei Loznitsa adaptou de Dostoievski – a obsessão, culminando em tragédia, de um velho por sua jovem esposa. Dois filmes franceses prometem – o Rodin de Jacques Doillon e L’Amant Double, de François Ozon. Vincent Lindon faz o escultor que, aos 40 anos, conhece o furacão Camille Claudel. Doillon e o desejo, a folie d’amour. Podem ser os temas do amante duplo de Ozon. Uma garota depressiva se envolve com seu psiquiatra que, aos poucos, revela sua verdadeira natureza, seja lá o que isso significa. Perigo? São apenas alguns dos filmes da seleção de Cannes para 2017 – nenhum brasileiro na competição! De qualquer maneira, lá vamos nós. Mal posso esperar para ver esses filmes, e os outros.