Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Arthur Penn e a ‘América’

Cultura

Luiz Carlos Merten

30 Setembro 2010 | 09h25

RIO – Nem vou contar para vocês – agora – meus percalços no dia de ontem. Achei que chegaria aqui e poderia postar sobre meu encontro com Graciela Borges, mas ao sair do cinema, à meia-noite, e ligar para meu editor, soube da morte de Arthur Penn. Arthur Penn! Na hora, não me caiu a ficha, porque ainda estava no clima do filme a que havia assistido, ‘Mine Vaganti’, uma sessão verdadeiramente inesquecível, e depois eu conto por quê. Acho que comecei a gostar de Arthur Penn antes mesmo de assistir a seus filmes. O primeiro, ‘Um de Nós Morrerá, com Paul Newman como Billy the Kid, eu vi muitos anos depois da estreia (e de haver assistido a outros filmes do diretor). Mas eu adorava ler Maurício Gomes Leite, que fazia crítica de cinema na ‘Manchete’, por volta de 1960 (um pouco depois). Era textos pequenos, mas sempre primorosos. Nunca me esqueço quando o futuro diretor de ‘Vida Provisória’, um dos meus cults do cinema brasileiro, resolveu escrever sobre westerns. Ford, Anthony Mann e ‘Le Gaucher’, que Maurício citava em francês – o filme chama-se ‘The Left-Handed Gun’, no original. Maurício Gomes Leite talvez tenha sido o mais nouvelle vague dos críticos e cineastas da época (no Brasil). Ele amava Penn e me transmitiu esse amor. Quando vi ‘Um de Nós Morrerá’ já conhecia ‘O Milagre de Anne Sullivan’ e acho que até ‘Mickey One’, com Warren Beatty, que tinha um título esquisito por aqui. Eu começava a pensar o cinema e Penn reatava com o cinema clássico de Griffith (‘Anne Sullivan’) ou refazia à européia os gêneros tradicionais (‘Um de Nós Morrerá’). Tive o privilégio de lhe fazer algumas perguntas no Festival de Berlim, quando ele recebeu um Urso de Ouro de carreira, há alguns anos. Não resisti e perguntei sobre os filmes da primeira fase – psicanalítica -, quando ele identificava armas com a genitália masculina. Mesmo depois, Penn nunca deixou de refletir sobre os EUA – a América – como um terrirório fundado na violência e no qual as pessoas e os governantes não conseguem resolver seus conflitos senão por meio delas. Penn fez filmes notáveis – ‘Um de Nós Morrerá’, ‘Anne Sullivan’, ‘Caçada Humana’, que ele renegava, porque o filme que fez foi remontado pelo produtor Sam Spiegel, ‘Bonnie & Clyde’ (‘Uma Rajada de Balas’), ‘Deixem-nos Viver’, ‘Pequeno Grande Homem’. ‘Um Lance no Escuro’ etc. Nenhum outro filme, de nenhum outro autor, revela o que era o clima dos EUA, em pleno escândalo de Watergate, com a força do último. E ‘Bonnie & Clyde’ é maravilhoso. A euforia do começo, os assaltos filmados como nas velhas comédias silenciosas, nas quais os carros entravam como bichos domésticos. Depois, a cena do milharal e a comédia que cede espaço à tragédia, concluindo no tiroteio final, decupado em 50 planos. Clyde, impotente, sublima sua necessidade de sexo – e Bonnie o acompanha – brandindo armas. Quando finalmente, ele tem sua ereção, os dois fazem sexo e sonham com um recomeço, o ‘sistema’ se abate sobre a dupla com sua máquina de matar. No way out, sem saída. Eu amava Penn. Segui-o como cão fiel, aonde foi, em Berlim. Falei com ele, mas na maior parte do tempo fiquei intimidado, o que é raro em mim. Não é o melhor filme, mas ‘Amigos para Sempre’ tem aquela cena genial. O protagonista recebeu um tiro. Está no hospital. Seu pai, um emigrante europeu, olha para o filho estendido na cama e diz apenas, com amargura, ‘América!’ Embora tenha feito grandes filmes, e filmes de grande sucesso, Penn nunca fez parte do ‘sistema’. Foi sempre um outsider. Seu final de carreira foi difícil e ele fez, aceitou fazer, filmes abaixo de suas possibilidades. Voltou ao teatro, seu primeiro amor, que o levou à TV, antes de desembarcar em Hollywood. É conhecida a história. Warren Beatty, que produziu ‘Bonnie & Clyde’, queria que Jean-Luc Godard ou François Truffaut dirigissem o roteiro de David Newman e Robert Benton. No final, foi Penn quem assumiu o projeto – felizmente. Não sobram muitos diretores de sua geração. Sidney Lumet e algum outro que estou esquecendo agora. Mas Lumet aceitou mais compromissos, tem uma trajetória irregular e seus melhores filmes não valem os de Penn. A ficha caiu. Me baixou uma tristeza.