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Cultura » Arthur Kennedy. E Lang

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Luiz Carlos Merten

14 Abril 2008 | 16h05

Saymon elogia Arthur Kennedy em ‘Rancho Notorius’ e fala de sua admiração por este (grande) ator, citando também ‘Um Certo Capitão Lockhart’, que ele fez com Anthony Mann. Concordo, Saymon, mas a respeito de Arthur Kennedy, mais do que Lang ou Mann, acho que ele é uma coisa de louco em ‘Madrugada da Traição’, o cult ‘The Naked Dawn’, que o diretor Edgar G. Ulmer adaptou de Gorki, transpondo a trama para o Velho Oeste. Ulmer, austríaco de nascimento, estudou arquitetura e filosofia, levando sua sensibilidade européia para Hollywood, onde se adaptou muito bem no cinema de gênero, é verdade que subvertendo, desde o interior, códigos há muito estabelecidos. O jogo de xadrez de Bela Lugosi e Boris Karloff em outro cult, ‘O Gato Preto’; o intimismo, não muito freqüente no western, de ‘Madrugada da Traição’, com Arthur Kennedy como aquele pistoleiro (Santiago) que perturba a vida do casal de camponeses mexicanos -Ulmer sabia como criar atmosferas. E, talvez por sua origem como arquiteto, sabia usar o espaço e a cenografia para criar ambientes muitas vezes claustrofóbicos, mesmo na amplidão do western. Ainda sobre Lang, já que o mote para falar de Arthur Kennedy foi fornecido por ele – Fábio me concede que ‘Rancho Notorious’ e ‘Moonfleet’ são bons, mas prefere ‘Os Corruptos’, com Glenn Ford, Gloria Grahame e Lee Marvin. Acho que citei os outros dois porque tendem a ser considerados ‘menores’, mas claro que ‘Os Corruptos’ é um ‘ishpetáculo’, como diz a Flávia Guerra, quando quer se referir a algo – ou alguém – superlativo. Cheguei a pensar em colocar também ‘Os Corruptos’, mas ‘Rancho Notorious’ e ‘Moonfleet’ serviam mais à minha defesa do cinema de gêneros praticado por Lang. E, sim, Fábio, concordo 100% que aquela discussão sobre o mal na sociedade norte-americana nos irmãos Coen (‘Onde os Fracos não Têm Vez’) é coisa de quem não viu Lang (e muito menos sabe sobre o que está falando). Aliás, quando ouço falar no ‘mal’ social em ‘Onde os Fracos não Têm Vez’ e ‘Paranoid Park’ (de Gus Van Sant), confesso que desligo. ‘Paranoid’ até que é legal como cinema, melhor do que outros filmes recentes de Gus Van Sant – se ele continuar fazendo filmes para a crítica francesa, leia-se ‘Cahiers’, vai acabar -, mas não vejo muita profundidade na sua ‘reflexão’.

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