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Luiz Carlos Merten

19 Março 2008 | 09h49

Como se não bastasse ontem o Anthony Minghella, morreu também o Arthur C. Clarke. Mas o que é isso? Estes grandes mortos estão indo em dupla… Bergman e Antonioni, Minghella e Clarke. Isto posto, quero dizer que não considero o Clarke tão grande, enquanto autor de ficção científica, como Ray Bradbury e Isaac Asimov. Pode ser só uma questão de gosto, mas acho que o Clarke era mais ciência do que ficção e a sua fama deve-se mais a Stanley Kubrick do que a ele próprio. Sei que me arrisco a levar pedradas. Afinal, o cara propôs os vôos orbitais tripulados em 1948 e virou consultor para assuntos do espaço da Nasa e do governo inglês. Ou seja – tudo bem científico. Ao chegar agora de manhã no jornal, fui aos arquivos do ‘Estado’, em busca da pasta dele. Saí ontem para entrevistar Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, tive compromisso à noite e só soube da morte do Clarke agora de manhã, olhando o jornal no táxi que me trouxe para cá. Me deliciei com as previsões erradas do Clarke. Ele participou de alguns simpósios no Brasil. Num previu que a cozinha desapareceria em 20 anos e que, em 1992, só existiria o robô caseiro. Em outro, incapaz de antecipar a queda do Muro de Berlim, disse que norte-americanos e soviéticos iriam trabalhar juntos para o futuro da humanidade. Tudo isso pode até dar motivo a piadas, mas Clarke também achava que Deus iria desaparecer definitivamente neste século (o 21), à medida que as máquinas se tornassem mais e mais inteligentes. Será? O astrofísico Stephen W. Hawking usa justamente as ferramentas da ciência para dizer que, se o Universo teve um começo – no Big Bang –, pode-se supor que teve também um criador e o que procura é justamente ir adiante da interrogação de Einstein, que se perguntava que grau de deliberação teria tido Deus na gênese do Universo? Acho curioso quando se diz que Clarke é o autor de ‘2001’. Tenho minhas dúvidas. Ele escreveu o roteiro do grande filme de Kubrick, mas o cineasta se baseou num conto do Clarke, ‘The Sentinel’, e só depois o próprio escritor espichou seu relato, até transformá-lo num romance. Clarke, inclusive, criou uma seqüência para ‘2001’, tentando desvendar o mistério do monolito negro em ‘2010, o Ano em Que Faremos Contato’, mas quem se lembra do livro, ou da ficção científica de Peter Hyams? O que vem é sempre ‘2001’ e lá o gênio visionário era Kubrick, que se valeu da colaboração de Clarke, mas também da de Douglas Trumbull, mestre dos efeitos especiais, para criar sua visão pessimista do futuro. O princípio de ‘2001’ – o conceito – é a procura inconsciente do pai, por parte do homem. Isso já havia sido invocado na ‘Odisséia’ (Homero) e, simbolicamente, por James Joyce, em ‘Ulisses’. A grande diferença é que Telêmaco e Ulisses se entendem claramente em Homero e metafisicamente em Joyce. Em ‘2001’, o criador, representado pelo monolito, e a criatura (o homem) não encontram uma linguagem comum e esta é a tragédia que – quem? Kubrick ou Clarke? – projetou para o futuro. Ah, sim. ‘2001’ está sendo lançado pela Warner num DVD duplo, edição de colecionador. Um disco traz o filme remasterizado digitalmente e o outro é cheio de extras, incluindo making of e um documentário – O futuro visto do passado –, analisando até que ponto as previsões de Kubrick foram bem-sucedidas.