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Cultura » Arriba, España!

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Luiz Carlos Merten

14 Julho 2007 | 10h16

Obrigado, Saymon. finalmente sei qual foi o júri – criminoso para mim – que deu o Leão de Ouro a A Passagem do Reno, de André Cayatte, com Charles Aznavour, dando apenas um premiozinho especial, de consolação, para o grande Visconti, por Rocco e Seus Irmãos. Foi um júri bastante eclético – Marcel Achard, escritor e roteirista francês, na presidência, o crítico argentino Jaime Potenze, que era bom; e dois cineastas, Berlanga, que com Juan Antonio Bardem marcou o cinema espanhol dos anos 50, e o russo Bondarchk, cuja adaptação de Guerra e Paz é um tédio e faria dormir o próprio Tolstoi. Aliás, aproveito para falar um pouco do cinema da Espanha. Nos anos 50, em pleno franquismo, a Espanha parecia um país obstinado em impedir que o século 20 cruzasse suas fronteiras. O cinema refletia este obscurantismo, e olhem que era forte nos cinemas brasileiros. Eu era garoto e ficava vendo todos aqueles filmes da Condor, que em Porto Alegre costumavam passar no circuito do Vitória. Sara Montiel, Marisol, Joselito, Pablito Calvo. Ave, Maria! Sarita era uma estrela. Filmou em Hollywood com Samuel Fuller e Anthony Mann e se casou com o segundo, interessando-o pela cultura espanhola, o que fez com que o grande Mann, autor de westerns clássicos com James Stewart, dirigisse no começo dos anos 60 o mais belo épico do cinema – El Cid, com Charlton Heston. Luis Cesar Amadori foi quem a dirigiu em La Violetera, com Raf Vallone, e O Último Tango, com Maurice Ronet, melodramas bem lacrimosos sobre p… de bom coração e mães solteiras. Foi neste quadro que Bardem e Berlanga começaram. Aliás, começaram juntos, co-dirigindo Bienvenido Mr. Marshall, que revi no Festival de Berlim, no ano passado, e é um filme divertido e lúcida para entender a ofensiva americana que conteve o comunismo na Europa. O continente havia sido devastado pela guerra, vários países estavam se tornando ‘vermelhos’ e os EUA criaram o Plano Marshall, despejando uma pá de dinheiro para que países como Itália e Espanha se recuperassem. Indiretamente, o Plano Marshall, reerguendo a Itália, diversificou seu cinema, tornando o neo-realismo obsoleto como espelho da realidade nacional. Nesta nova Itália com moradia, emprego e comida, fábricas funcionando e cidades se modernizando, o neo-realismo ficou velho e foi substituído por novas tendências – o realismo interior de Antonioni e Fellini, as pesquiisas estéticas e políticas de Visconti, o humor, com o florescer de comédias admiráveis que consolidaram Risi e Monicelli. Na Espanha, ao começar a trabalhar sozinho, Bardem – acho que é tio de Javier – produziu grande impacto com A Morte de Um Ciclista, que é o filme mais crítico da sociedade franquista, daquela época. Bardem virou ídolo da intelectualidade jovem em seu país, mas foi preso antes que concluísse Calle Mayor. A partir daí, teve problemas permanentes com a censura, mas não se intimidou e produziu Viridiana, de Buñuel. A trajetória de Berlanga não foi distinta, mas ele era mais humorado. El Verdugo é uma obra-prima de humor negro e La Escopeta Nacional, sobre industrial que organiza uma caçada para afagar políticos e militares com força no regime, é A Regra do Jogo do cinema da Espanha. Um dos primeiros filmes de Saura – e o primeiro grande -, La Caza, também usa a caçada como metáfora da Espanha franquista. Saura seguiu desafiando a censura com seus filmes alegóricos, metafóricos – Ana e los Lobos, Prima Angélica, Cria Cuervos. Ele desenvolveu um método tão apropriado – poético e perverso -, que teve dificuldades de se adaptar ao cinema da nova Espanha, pós-Franco. É quando entra Almodóvar, como produto da movida, primeiro escrachado, depois progressivamente mais denso, sutil e maduro. Acho que um pouco dessa história que resumo aqui será lembrada na próxima quinta, na Fnac, num evento de que devo participar, com Rubens Ewald Filho, sobre Almodóvar, pegando carona no lançamento de uma caixa de DVDs de Pedrito.

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