Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Argonautes, adeus

Cultura

Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2011 | 21h25

Sei lá o que ocorreu, mas havia alguns comentários sobre o post  ‘Professoras’ que terminei por deletar, quando tentava salvá-los. Posso me desculpar, ou então pedir às pessoas que os postem, de novo. Pedido feito, deixem-me contar que, às quintas-feiras, a buldogue da Lúcia vai à ‘creche’ e, por uma questão de conveniência, a kombi escolar deixa a Angel em minha casa. Já virou chacota do pessoal do jornal, mas às quintas, à tarde, dou um jeito de passar em casa para ver como está minha ‘neta’. Cheguei hoje e encontrei a própria Lúcia. Minha filha fazia uma pesquisa na internet. Érico e ela estão pensando em ir a Paris, nas férias, e ela queria saber o nome do hotel do 5ème em que gosto de ficar, o Argonautes. Abrimos o site e tive um choque. O Argonautes fechou, definitivamente, em 30 de julho, depois de 30 anos de atividades. Há uns 20 vou regularmente a Paris. Nunca fico muito, mas já houve ano em que fui seis vezes. Trinta e tantas vezes, 40 visitas à França não representam pouca coisa. Com exceção dos dois ou três primeiros anos, quando ficava no Hôtel des Écoles, Rue des Écoles, o Argonautes há tempos vinha sendo minha casa. Bastava ligar e o Jannis, que atendia na recepção, sempre arranjava lugar para mim, independentemente de ser alta ou baixa estação. Meu amigo Dib Carneiro detestou o hotel. Achou-o pobrinho demais, e nem a localização privilegiada – a dois passos de Notre Dame, com todos aquelas salas de art-essai nas redondezas, mais as livrarias especializadas em quadrinhos e cinema – o fez mudar de ideia. Para mim, o Argonautes havia virado uma referência e uma segurança. Para onde terá ido meu amigo Jannis? Onde ficarei agora, ao voltar à França? Pode parecer tolice, mas ao ler o comunicado no site senti como se fosse o fim de uma era. Da minhas vida, pelo menos. Nunca mais o Argonautes! A notícia aborreceu-me, mais do que me entristeceu, muito mais do que sou tentado a admitir. Quantos dias e noites da minha vida passei naquele hotel, lendo, fazendo matérias? O Argonautes não tinha TV no quarto, mas tinha wi-fi liberada, o que é raro em hoteis da Europa e dos EUA. Bastava se conectar e o mundo todo estava ao alcance da gente. Os Argonautas, Jasão e o Velo de Ouro. Agoras j´sa estou viajando na Grécia. O Dib embarca dia 5 para a Grécia. Vai com o filho, Heitor, e a sobrinha, Elisa. Dib tem essa amiga de Bauru, a Cristina, que estudou com ele na Eca. Cristina é guias turística e, todo ano, organiza excursões temáticas à Grécia. O tema deste ano é a tragédia grega, e Dib não resistiu. Vai ser, para ele, o desdobramento do que tem sido sua atividade diária nas últimas semanas. Gasbriel Villela, qwue acasba de estrear ‘A Crônica da Cidade Amada’ na cidade, prepara, paras o começo de novembro, a montagem de ‘Écuba’, sem H, adaptado de ‘As Troianas’, que virou filme de Michael Cacoyannis com Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave, Geneviève Bujold e a mais ‘trágica’ de todas, Irene Papas. Quase dembarquei nessa, mas a duração da viasgem corresponde exatamente ao Festival do Rio. Sorry, mas não há Grécia que me faça desistir das Première Brasil. E todo esse post começou com o fechamento do Hôtel des Argonautes. Deus, como eram maravilhosas as trucagens de Ray Harryhausen em ‘Jasão e o Velo de Ouro’. Mais de uma vez, no escuro da noite, minha imaginação me transportou daquele hotel para o épico mitológico de Don Chaffey. Bastava olhar para as paredes do Argonautes, com todas aquelas evocações míticas. Como diria Ricardo Guiraldes, estoiu me sentindo o próprio Don Segundo Sombra, com o coração ‘que desangra’.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato