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Luiz Carlos Merten

28 Outubro 2008 | 12h45

Tem outro filme que passa hoje na mostra, mas este acho que é uma indicação mais complicada. É western, sabem como é. Vocês gostam, eu também – meus posts recordistas de comentários são sempre sobre faroestes –, mas tem gente que torce o nariz e acha que cinema de gênero é filme noir, musical, sei lá. Estava em Los Angeles e fui ao fim da cidade, gastando uma nota de táxi para ver ‘Appaloosa’, que ganhou aqui um subtítulo, ‘Uma Cidade Sem Lei’. Mentira, não era no fim do mundo. O cinema era no lendário Sunset Boulevard, em Hollywood, em frente à Universidade de Cinema de Los Angeles e quase ao lado da Amoeba Music, na qual você encontra, novos ou usados, todos os discos de vinil, CDs e DVDs de música do mundo. Para quem se liga em preciosidades, velhos discos fora de catálogo, essas coisas, a Amoeba deve ser o paraíso na Terra. E o público lá dentro tem a maior concentração de bichos-grilos que a gente ainda encontra rodando por aí. Metade daquele público, pelo menos, é ‘alternativo’ e voltou a pé de Woodstock. Não é por acaso que o lema da Amoeba é ‘Peace through Music’. Mas, enfim, deixem-me voltar a ‘Appaloosa’. O filme dirigido e interpretado por Ed Harris começa com o assassinato a sangue frio de um delegado federal pelo rancheiro Jeremy Irons. Prossegue com a chegada de dois pistoleiros à cidadezinha de Appaloosa. Ed Harris e Viggo Mortensen fazem os papéis. Existem ecos de outras duplas célebres, incluindo Henry Fonda e Anthony Quinn, que também chegam a Warlock para limpar a cidade de ‘Minha Vontade É Lei’, de Edward Dmytryk. No início, você até acha que Ed Harris vai investir neste filão do homoerotismo dos caubóis. Numa cena, Ed Harris se descontrola, vira uma fera e Mortensen o agarra por trás, para acalmá-lo. Não é por aí. A viadagem vai estar no olhar de quem vê, pois logo entra a mulher, Renee Zelwegger, para desestabilizar o universo masculino. Nunca houve uma mulher como ela no Velho Oeste. Joan Crawford e Mercedes McCambridge duelavam em ‘Johnny Guitar’ – e o grande Nicholas Ray construía sugestões de lesbianismo, com aquelas mulheres de revólver na bota, para rechear sua alegoria sobre (e contra) o macarthismo. Lembro-me que meu amigo Jefferson Barros, em Porto Alegre, nos anos 60, quando assistimos ao filme, se escandalizou com as liberdades que Ray tomava em relação ao gênero. Jefferson não viveu para ver ‘Appaloosa’. Renee Zelwegger chega sozinha e logo está indo para a cama com o xerife (Harris). Eles constróem uma casa e é neste cenário inacabado que ela investe sobre Mortensen, da mesma forma como depois, seqüestrada para forçar Harris a soltar Jeremy Irons, ela toma banho de rio nua com o seqüestrador e, no limite, cede ao próprio Irons. Por que essa mulher age desse jeito? Tem uma fala muito interessante, mas o importante é que ela termina por forçar a separação dos amigos. Não sei se para gostar de ‘Appaloosa’ é preciso ser fã de westerns. Eu sou e o filme me intrigou bastante. Ed Harris já havia feito ‘Pollock’, sobre o pintor Jackson Pollock, que era sobre o gênio no trabalho, e o gênio autodestrutivo. Essa capacidade que seus personagens têm de dirigir a violência para o exterior, para destruir os outros, e para o interior, para se (auto)destruir, reaparece em ‘Appaloosa’. Não é um filme só para ‘ver’. Para mim, pelo menos, deflagrou um processo de reflexão que ainda não terminou. Estou ‘maturando’, como se diz.