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Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2007 | 11h13

Espero ter deixado bem claro que, ao recomendar ‘Sombras’, ainda não havia visto o filme de Milcho Manchevski. Concordo que ele tem esse lado ‘Sexto Sentido’, mas o que me pareceu interessante é que a maneira daquela cultura – a Macedônia, uma das repúblicas que integravam a Iugoslávia – encarar a morte, e tratar os mortos, está mais próxima de John Huston (e Malcolm Lowry) em ‘À Sombra do Vulcão’. Não estava gostando, mas aí, no twist final, quando percebi o processo narrativo – apontar numa direção e fazer o filme retornar a outra –, a coisa me pareceu muito intrigante (e coerente com a estrutura circular de ‘Antes da Chuva’, o filme do Manchevski do qual, este sim, eu gosto muito). Outro filme que estou curioso para ver, e passa hoje, é ‘Conversas com Meu Jardineiro’, do Jean Becker, com Daniel Auteuil e Jean-Pierre Darroussin. Pelo trailer, que vi na França, Auteil faz um cara brem sucedido, rico etc, que deixa Paris e volta à casa de sua infância, que está abandonada. Ele contrata um jardineiro e o cara era um camarada dos seus verdes anos. O que se segue imagino que seja um filme sobre escolhas e os diferentes rumos que a gente toma na vida. Sinceramente, não sei se a crítica lá de fora gostou, porque não tenho nenhuma referência, nem busquei. Também não assisti ao filme. A aposta é no escuro. Jean Becker é filho de Jacques Becker – diretor de clássicos do cinema francês nos anos 40 e 50, incluindo seu último, ‘A Um Passo da Liberdade’ (Le Trou), de 1960, quando ele já estava doente, quase morrendo. Jean, que era assistente do pai, teve de filmar alguns planos para encerrar a produção. Quando virou diretor, ele optou pelo policial, e fez alguns com Jean-Paul Belmondo. Fez também a comédia ‘Pas de Caviar pour Tante Olga’, que era bizarr, como Wes Anderson faria, se tivesse filmado na França. Exagero um pouco, mas é isso. O filme de Jean Becker que guardo na memória é ‘Verão Assassino’, que já tem mais de 20 anos (e assisti no antigo Cine Vogue, em Porto Alegre, que virou depois Cinema Um, ali na av. Independência. Por que será que, de alguns filmes, me vêm sempre o lugar em que os vi? Mistério…) Até hoje não sei se ‘Verão Assassino’ é bom, porque nunca o revi, mas que Isabelle Adjani, com sua sensualidade ‘perigosa’, faz parte das minhas lembranças inesquecíveis no escutinho do cinema, lá isso faz. De quem era o mérito do filme? Da atriz? Do diretor? Quem sabe…