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Luiz Carlos Merten

14 Novembro 2007 | 16h13

Quando meu editor Dib Carneiro Neto resolveu dar uma capa juntando as quatro estréias nacionais de amanhã, confesso que minha primeira idéia foi ver nos quatro filmes – ‘Mutum’, ‘A Casa de Alice’, ‘O Magnata’ e o documentário ‘Grupo Corpo 30 anos’ – um retrato da diversidade do cinema brasileiro. Somente hoje, ao redigir os textos, fui fazendo uma costura que me pareceu interessante. ‘Mutum’ usa esse menino com problemas de visão para revelar o mundo a partir de um ponto cego, no qual ver pouco, ou nada, significa captar o essencial. É um pouco o tema de A’ Casa de Alice’. Chico Teixeira queria fazer um documentário, um ensaio sobre a cegueira, mostrando o que, ou como, os cegos conseguem enxergar melhor que a gente, simplesmente por apurarem seus sentidos. Ele terminou se orientando para a ficção e construiu, em primeiro lugar, a personagem de Jacira, a velha que está ficando cega, mas vê todos os podres daquela família. Construindo uma família para Jacira, ele chegou a Alice, o marido e seus filhos, fazendo outro filme, mas a base também é a necessidade de apurar os sentidos para ver melhor. Ambos, o Chico e a Sandra Kogut, diretora de ‘Mutum’, são documentaristas estreando na ficção. Ambos trabalharam com preparadores de elenco, como o Johnny Araújo, em ‘O Magnata’, embora os métodos não tenham sido os mesmos. Essa figura do preparador é muito polêmica no cinema brasileiro atual, como pode perceber quem leu minha capa sobre ‘Jogo de Cena’, do Coutinho, na semana passada. Já disse que gosto, em ‘O Magnata’, da fala dos manos, achando interessante como aquele personagem tem um lado ‘O Invasor’, vivendo, como membro de uma elite corrompida, nas bordas da marginalidade (e sendo invadido por ela). Johnny Araújo surgiu no Planet Hemp, ligado a essa cultura. Sandra Kogut esquece o que qualquer pessoa diria que é o mais forte em Guimarães Rosa, a prosódia, para fazer um filme em que o silêncio, o olhar, o clima, tudo isso termina sendo mais importante que as palavras. Um curioso contraponto ao Johnny, por diferentes que sejam os filmes dos dois (mas eles tratam de identidade, que também não deixa de ser o tema de ‘Alice’). Meu medo é que todos esses filmes – mais o documentário de Lucy Barretro sobre o Grupo Corpo – estejam indo para o sacrifício do abatedouro. Logo após a Mostra, estrearam aqueles filmes brasileiros – ‘A Via Láctea’ e ‘Noel’ – que não foram bem. Por seu perfis, creio que ‘Mutum’ e ‘A Casa de Alice’ são tão pequenos que podem dar certo, além do prestígio que vão dar a seus diretores. ‘O Magnata’ é uma aposta junto ao público jovem. Uma aposta e uma incógnita. O melhor de todos esses filmes foi o do Coutinho, que também é the best, esteticamente (é o melhor nacional do ano, independentemente de gênero). Vamos passar essas estréias e acho que aí teremos de falar seriamente sobre mercado. Hoje, não. Tenho muita coisa para concluir, para poder viajar amanhã ao Vitória Cine Vídeo, onde ‘Cinco mais Cinco’, o livro do Festival do Rio que escrevemos, Cacá Diegues, Rodrigo Fonseca e eu, e que terá sessão de autógrafos à tarde. Só espero que o ministro Jobim esteja errado ao prever o caos nos aeroportos no feriadão.

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