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Aposta no melhor? Desejo de vingança?

Luiz Carlos Merten

08 Março 2010 | 10h11

Não sei de vocês, não sei se é coisa da idade, pode ser. Quando se é jovem, a última das preocupações que a gente tem é com a morte. Parece que vai viver para sempre. Com o tempo, a sensação de finitude é maior. Não sou mórbido nem penso excessivamente na visita dessa velha senhora, mas já há algum tempo que um dos momentos que mais aguardo no Oscar é a homenagem aos mortos do ano. Tantas mortes passam despercebidas. Ontem, por exemplo. Não sabia que Kathryn Grayson tinha morrido. Kathryn nunca chegou a ser estrela de primeiríssima grandeza na Metro, mas teve sua importância no ciclo dos musicais. Rubens Ewald Filho, que comentava a cerimônia, lembou-se dela em ‘Dá-Me Um Beijo’, a versão musical de ‘A Megera Domada’, por George Sidney, e também de outro filme do príncipe dos musicais, ‘Show Boat’, ‘O Barco das Ilusões’, mesmo que, neste último, Kathryn e o restante do elenco sejam ofuscados por Ava Gardner. Mas eu me lembro de Kathryn em ‘Rose Marie’, a versão de Mervyn LeRoy, que vi no antigo cine Colombo, na Cristóvão Colombo, em Porto. Lembro-me da diversão das tardes de domingo. Eram as matinés do Rival, do Orfeu, cinemas que ficavam mais próximos da minha casa, na Rua Mata Bacelar, bairro Auxiliadora. Nestes eu ia carregado de gibis, porque naquela epoca eu lia muito revistas em quadrinhos. No Colombo, não, e nãso apenas por ser mais distante. No Rival e no Orfeu, via os filmes de aventuras, bangue-bangues, fantasias científicas, nos mares, épicos. No Colombo, que apresentava a distribuição da Metro, eram os  musicais. Era um cinema mais metido a besta e, naquela época, no meu imaginário, uma coisa mais de ‘menina’. Demi Moore estava deslumbrante – se ela ainda continua com Ashton Kutcher, o cara é um rejuvenescedor e tanto. Demi anunciou James Taylor e ele veio tocar e cantar os Beatles, em homenagem aos desaparecidos de 2009. Kathryn, Jean Simmons, Karl Malden, que foi presidente da Academia e de quem partiu a ideia polêmica de homenagear Elia Kazan, como se o grande diretor não tivesse sido suficientemente homenageado ao ganhar duas vezes o Oscar, por ‘A Luz É para Todos’, em 1948, e ‘Sindicato de Ladrões’, em 54. Confesso que me emocionei, mais uma vez, Foram palavras banais, talvez. Um agradecimento pelo que fizeram, pelo privilégio de havê-los conhecido, como disse a Demi. Não creio que a festa, propriamente dita, tenha sido melhor do que a do ano passado, que teve a terceira pior audiência da história, desde que o prêmio passou a ser terlevisionado. O começo prometeu, com aquele texto ótimo que Steve Martin e Alec Baldwin leram no teleprompter, fazendo gracinhas um com o outro e com a plateia. Mas, depois, foi anódina, eu achei. Mesmo assim, teve momenos emocionantes. Não estou falando de Lauren Bacall e Roger Corman, o homem que talvez tenha reinventado Hollywood, ao dar a primeira chance a Coppola, Scorsese, Demme e muita gente mais. A passagem dos dois pela festa foi nula, ou quase. Estou falando da stand up ovation para Mo’Nique, que ela merecia, mesmo que eu não seja o maior fã de ‘Preciosa’; da presentação de Jeff Bridges feita por Michelle Pfeiffer. Bridges, Sandra Bullock também foram aplaudidos de pé. Michelle lembrou seu companheiro de elenco de ‘Susie e os Baker Boys’.  Ela deitada sobre o piano, cantando e os dois irmãos Jeff e Beau Bridges, como músicos, gravitando na sua galáxia. Não gosto particularmente de Bridges, confesso, e nem sei direito por quê. Não creio que sua interpretação seja das melhores em ‘Coração Louco’. É boa e ele talvez tenha ganhado por tudo aquilo que Michelle disse, e disse de um jeito tão bonito que eu quase chorei com o cara. No final,o que vale não é o que as pessoas pensam da gente – tanto fdp é incensado no dia a dia -, mas o que, no íntimo, a gente sabe que fez, aquilo que a gente sabe que é. Mas é gratificante saber-se querido, e Jeff Bridges passou isso. Lembrei-me dele, o jovem Bridges de ‘A Última Sessão de Cinema, de Peter Bogdanovich, Timothy Bottoms e ele. Um se sobressaiu, o outro… E o Oscar para Kathryn Bigelow. Ainda vai se passar algum tempo até que se deglutido o significado do que ocorreu ontem à noite, em Hollywood. O maior sucesso de todos os tempos (‘Avatar, e eu gosto do filme), o diretor que se autoproclamou o rei do mundo e faz o que quer, como quer, no cinemão, dobrados (humilhados?) por um filme pequeno e que permaneceria um objeto não identificado, se os críticos e as Guilds, os sindicatos de produtores, diretores e roteiristas não tivessem descoberto e avalizado ‘Guerra ao Terror’.  Como terá reagido Cameron na intimidade? Fúria, raiva? Tirou alguma lição de sabedoria? E foi convicção – a aposta no melhor – ou desejo de vingança? Isso é tema para especulação, mas fica para depois.