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Luiz Carlos Merten

13 Janeiro 2010 | 13h05

Cheguei pensando em escrever um texto – o que vocês vão ler agora -, mas a morte de Eric Rohmer me impulsionou a escrever outro. Volto agora ao meu plano original. Robert B – acho que foste tu, não? – sugere ou é mais incisivo e pede (ordena?) que eu me aposente, por ter defendido ‘Lula’, o pior filme da Retomada, segundo ele. Aleluia! Fábio Barreto vai voltar feliz do coma ao saber que pelo menos alguém defende ‘Jacobina’ e ‘Nossa Senhora de Caravaggio’! Brincadeiras à parte – não sei como está o Fábio -, tenho pensado bastante no ‘Lula’, o filme, embora parte dessa reflexão também se deva ao personagem. Somente em Los Angeles descobri, via um jornalista francês, que Lula, o presidente, foi escolhido o homem do ano, acho que pelo ‘Le Monde’. Ha-ha. É curioso, mas ao defender o que acho defensável no filme me distancio um pouco da figura real e o que me atrai é o personagem de ficção, definido através das cenas que me encantam e que já analisei aqui (e também na crítica publicada no ‘Estado’). Mas o detalhe é o seguinte. ‘Invictus’, o novo Clint Eastwood, é sobre Nelson Mandela num momento decisivo de sua vida (e carreira). Eleito presidente da África do Sul, ele assume o poder num país rachado pela herança do apartheid. No filme, a sacada de gênio de Morgan Freeman, isto é, Mandela é usar o hóquei para unir brancos e negros no mesmo projeto de nação. Temos experiência disso. Na América do Sul, as ditaduras, no Brasil e na Argentina, usaram a vtória na Copa do Mundo (de futebol) para se legitimar. O projeto de Mandela é mais generoso. Ele quer usar o esporte justamente para enterrar a herança do apartheid. Pergunto-me quantas críticas negativas receberá o novo Clint? Os seguranças de Mandela chegam para acompanhá-lo em sua tradicional caminhada matutina. Encontram o político caído no solo, desmaiado. O estresse da função – administrar um país em frangalhos – o derrubou. O médico diz que ele precisa descansar, se afastar de tudo e a secretária retruca – quem vai conseguir isso? Ele vai querer voltar imediatamente a trabalhar, e é verdade. Como definiríamos isso – Mandela, o Grande Irmão? E o filme – chapa branca? O curioso é que Mandela, como personagem, é um espelho do que o próprio Clint interpretou em ‘Gran Torino’, que escolhi como um dos melhores filmes do ano passado. Outro exemplo, de outro filme. Quem é contra Lula, o personagem – e, automaticamente, contra o filme -, cobra o que o diretor Fábio Barreto não colocou em cena. Até quem é simpático apresenta suas cobranças. É raro um filme feito para ns atender, exclusivamente. Tyrese Gibson disse um,a coisa que não deixa de ser interessante, na junkett de ‘Legion’. Os críticos batem pesado porque tem sempre os próprios filmes na cabeça. Por que eles nao fazem os ‘seus’ filmes ideais? E como reagiriam quando alguém desse porrada neles? Tive outro dia um pensamento ‘herético’. Gandhi, o Mahatma, era um defensor tão radical da não violência que se posicionou contra ela mesmo no caso extremo dos judeus que se levantaram contra o nazismo. Isso não estava no filme de Richard Attenborough, muito mais hagiográfico do que o de Fábio Barreto. E por que não estava? Vamos imaginar – todo mundo sabe a importância dos judeus em Hollywood. Há até um livro – de Neal Gabler – que trata justamente disso. Chama-se ‘An Empire of Their Own: How the Jews Invented Hollywood’. Se o filme tivesse uma cena dizendo que os judeus deveriam ir para o forno sem protestar, em nome de pressupostos ‘éticos, será que o filme teria recebido o Oscar? Sorry, Roberto B. Ainda não vou me aposentar. Vou ficar por aqui, te aporrinhando mais um pouco.