Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Apolítico, eu?

Cultura

Luiz Carlos Merten

22 Março 2008 | 23h05

Estou sozinho neste final de semana. Minha filha e genro foram para a serra (Santo Antônio do Pinhal) e eu fiquei atirado. Li, fui ao cinema (ao CineSesc, para ver dois filmes do ciclo que homenageia Jorge Amado, ‘Jubiabá’, de Nelson Pereira dos Santos, que nunca tinha visto – depois eu falo -, e ‘Dona Flor’, de Bruno Barreto, que eu confesso que quis rever por causa da trilha. Estou engasgado com uma coisa que alguém disse aqui outro dia. Me chamaram de apolítico, o que me pareceu ofensivo. Posso ser apartidário, mas não apolítico. Realmente, não tenho vocação para seguir escolas, partidos, o que for. (Mas já vou avisando que vou votar na Marta para a prefeitura. Mais do que pró-ela, será um voto antiKassab.) O que eu quero, mas sei que é difícil – por exemplo, tenho horror de gente muito tatuada -, é não ter preconceito. Outro dia falei com Francisco César Filho, o Chiquinho, que começa a rodar seu longa na semana que vem. Se vocês virem alguma movimentação na Rua Augusta, será, com certeza, o Chiquinho, porque o filme dele se desenrola quase todo por ali, contando histórias de gente que ele conheceu, com quem conviveu, mas sem necessidade de identificar ninguém (vai ser, como se diz, um filme ‘à clef’). Quando falei com o Chiquinho e perguntei pelo elenco, ele disparou – sobretudo, ninguém da Globo. Chiquinho é totalmente do bem, mas isso me parece um preconceito. Lembo-me da história que já contei aqui. No Festival de Brasília de 2000, na noite da apresentação de ‘Bicho de Sete Cabeças’, Rodrigo Santoro recebeu uma vaia monumental da politizada platéia brasiliense. Rodrigo resistiu heroicamente e, no final, foi ovacionado pelo mesmo público que o vaiara. Achei aquilo um preconceiro (antes) e uma generosidade (depois). Ao vaiá-lo, a platéia vaiava a Globo, mas o Rodrigo é tão maravilhoso no filme que venceu todas as resistências. A vaia era para a Globo, a ovação, para ele. Fui rever ‘Chega de Saudade’, o novo filme de Laís Bodanzky. Gostei mais ainda (se é possível). Fui com um amigo que observou, sem maldade, que o filme é um festival de pelancas, tudo aquilo que a Globo gosta de esconder. Gente velha, sem maquiagem, cheia de rugas. E muita gente daquele elenco é global – Stepan Nercessian, Cássia Kiss, Paulo Vilhena etc. O elenco todo do filme é maravilhoso – e quando Leonardo Villar e Tônia Carrero saem de cena aplaudidos pelo público do salão, eu, pelo menos, gostaria de ter-me levantado para aplaudí-los, também. Não reconheço, no cinema brasileiro recente, elenco tão maravilhoso (mais é impossível). Maravilhoso , na sua diversidade, e homogêneo, porque profissionais, amadores, figurantes, todos se integram muito bem. Encontrei, na saída, minha amiga Nirce Levin, que agora é Nyrce (com Y), bela (em todos os sentidos) atriz gaúcha que fez um teste para ‘Chega de Saudade’, mas ficou de fora da seleção final do elenco. Nyrce me disse o que qualquer um que seja do ramo vai perceber – Laís é uma grande diretora de atores e atrizes. Cássia Kiss é sublime no filme, e é global. O problema, portanto, não está no fato de os atores serem globais, ou não. Está nos diretores que, eventualmente, não conseguem tirar deles – às vezes nem exigemn – mais do que o naturalismo das novelas. Vejam ‘Chega de Saudade’. O filme cresceu. É um filme de detalhes. As expressões dos atores, a forma como a música participa das cenas, a montagem (grande Paulo Sacramento!). Comecei este post falando do negócio de ser apolítico ou apartidário, fiz minha profissão de fé antipreconceito. Laís e seu marido roteirista Luiz Bolognesi também são contrários ao preconceito – mas isso, musicalmernte, é uma coisa que vem do tropicalismo. O breguíssimo Reginaldo Rossi é genial no filme. ‘Mon amour, meu bem, ma femme tem tudo a ver com a cena em que serve de fundo. Estou em êxtase. É um filme sobre o tempo, sobre a solidão, sobre o samba que não quer morrer, como canta Elsa Soares – e o samba é metáfora daquelas pessoas de meia-idade -, é um filme sobre a palavra, como escrevi no meu texto do ‘Caderno 2’. Ela conseguiu de novo, Laís Bodanzky. Eles conseguiram, porque embora seja ela a diretora, o maridão Luiz traz uma contribuição valiosa para o cinema dela, e não apenas como roteirista.