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Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2007 | 11h48

Há um paradoxo em Apocalypto – o filme abre-se com uma citação do historiador Will Durant, que diz que as civilizações destróem-se desde o interior. De uma maneira meio vaga, poderíamos dizer então que o tema de Mel Gibson é a destruição dos EUA, que lhe interessa, obviamente, muito mais que a dos maias. Mas seu filme, e este é o paradoxo, não é sobre a destruição de uma civilização, embora todos os signos se façam presentes. Quando a tribo é dizimada e os guerreiros sobreviventes são levados como escravos para o centro do mundo maia, eles atravessam vastas áreas de destruição. Matas que foram deflorestadas, homens e mulheres reduzidos a uma condição menos que animal e há até uma garota pestilenta que lança uma praga bíblica. Tudo isso tem a ver com a narrativa do pagé, falando sobre o vazio interior que leva o homem a querer conquistar o mundo e ao sentimento de frustração que lhe corrói a alma, mas quando ele des cobre que é impossível preencher este vazio. Temos, assim, uma pequena ilustração do que seja o materialismo dialético (ou não?), mas vamos adiante. Ouço dizer que Apocalypto se desenvolve em duas ou três partes e que as primeira corresponde ao mundo idílico, em equilíbrio. Idílico para quem, cara-pálida? As pruimeiras cenas tratam da divisão e marginalização dentro da própria tribo, onde os guerreiros não são nem um pouco solidários com aquele, entre eles, que não consegue engravidar a mulher e é chamado de inútil pela sogra. O tema, neste primeiro momento, não é o equilíbrio do mundo, mas tudo o que o ameaça, ou o que mais o ameaça – o medo. Cada um tem seu medo particular, o seu vazio. A chegada dos conquistadores maias rapidamente estabelece um conflito. Há um, entre eles, que quer matar o herói e, impedido de fazer isso, se vinga de uma forma muito cruel. É quando o olho começa a falar, no cinema de Mel Gibson. Ele flagra o olhar do herói para seu pai e, na impossibilidade de matá-lo, vinga-se matando o pai. Outro olhar desesperado e nova descoberta – a da mulher grávida e do filho pequeno que o herói escondeu num buraco. Cortado o fio que a prende à superfície, ela estará condenada, a menos que o guerreiro consiga realizar sua assunção. À praga bíblica, segue-se a salvação também bíblica do herói prestes a ser sacrificado – pela intervenção divina, por meio do eclipse. A partir daí, a história da fuga e da salvação da mulher (a possibilidade de um novo começo) são sempre regidas por novas quedas e novas assunções – na água limpa de uma cachoeira, na lama de um pântano. No processo todo, o corpo do herói carrega as marcas da violência, pois é trespassado por lança, flecha e facada. Em A Paixão de Cristo, a superação do martírio fazia-se pela via da salvação do Espírito. Em Apocalypto, o divino pode intervir, mas a perspectiva é sempre humana. Quando o herói consegue reunir a família – e não é a sagrada família reconstituída por Bergman no desfecho de O Sétimo Selo porque temos, aqui, pai, mãe e dois filhos –, abre-se a terceira etapa, a da chegada dos conquistadores espanhóis, que trazem a espada e a cruz, lado a lado naquela canoa. Foram as duas formas de dominação da América Nuestra, a da violência da espada e a da violência da evangelização. Embora o tema não seja especificamente este, a idéia da destruição interna da civilização maia não deixa de ter sido exposta, por meio do desequilíbrio ecológico e pelo medo que busca respostas no fanatismo religioso, coisas que remetem à civilização maia tanto quanto ao declínio do triunfante império americano, sob Bush. E, se o tema é o recomeço, a segunda chance (tema tradicional do cinema americano), Mel Gibson é hustoniano. Todo esforço, a luta, é válido e necessário, mas é um recomeço condenado, sem futuro. Depois de escrever tudo isso, o que vou dizer talvez decepcione o leitor. Não estou defendendo Mel Gibson e seu cinema, mas me preocupo com o tipo de desprezo que os críticos têm em relação a ele, como se fosse um diretor de segunda, que não necessita de atenção. Mel é uma figura curiosa, para mim. Virou astro fazendo filmes como os das séries Mad Max e Máquina Mortífera, que não valem grande coisa. Salvo lapso de memória, o diretor mais importante com quem ele trabalhou foi Peter Weir, em Galipolli e O Ano em Que Vivemos em Perigo. Me impressiona muito o rigor da mise-en-scène dele, aquela obsessão pelo olho, que é uma maneira de reinventar Nicholas Ray (‘Cinema é a melodia do olhar’). Nunca sei se gosto dos filmes de Mel Gibson, mas gosto de partes dos filmes dele (o jogo dos olhares), gosto da sua maneira de dirigir os atores, de ir contra os cânones da indústria. São filmes que me causam mal-estar, que me criam problemas (de fundo ético, principalmente). Saio de um filme do Mel Gibson muito mais perturbado, ultimamente, do que de um de Scorsese. A violência de Os Infiltrados não me diz nada, pode ser que diga para outras pessoas. E olhem que nem estou elogiando fotografia e música de Apocalypto. A mata tem um mistério que não é alheio ao de Mal dos Trópicos. A música de James Horner – bem, é James Horner. O que mais posso acrescentar? O nome do cara fala por si mesmo.