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Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2007 | 11h41

Não devo ter entendido nada. Ontem, postei aquele texto dizendo que o ‘não entendi’ é balela. Que o filme, qualquer filme, independe de manual para ser usado (ou ‘entendido’) corretamente, mas agora fiquei em dúvida. Cheguei na redação do Estado, em pleno processo de mudança interna, e não consegui me encontrar na nova reformulação espacial. Espero não ter sido ‘chutado’. Para passar o tempo, fui à coleção do Estado para ver como havia sido a receptividade a Apocalypto. Encontrei um texto de um teólogo horrorizado com a obsessão de Mel Gibson pelo anti-semitismo. Substituindo os templos maias por templos judaicos, ele acha que a intenção do diretor ficaria mais clara. Bem – se poderia também substituir os templos maias, ou o grande templo maia, pela Casa Branca e a ‘mensagem’ ficaria ainda mais clara. Ou será que fui só eu, também obcecado (não pelo anti-semitismo, é verdade), que consegui ver naquele monarca, sob toda a maquiagem, um sósia de George W. Bush? Defendo-me, antecipadamente. Depois que o diretor põe seu filme na rua, ele não mais lhe pertence. Vira nosso e cada um vê o que quer, ou pode. Tenho, confesso, um sentimento ambivalente em relação a MG. Êpa, em relação a Mel Gibson, para ninguém pensar que estou falando de Minas Gerais. Ele vem desse lugar estranho do mundo chamado Austrália, que foi colonizado, se não me engano, por prisioneiros ingleses que a Coroa mandava para lá. Não quero fazer generalização nenhuma, mas australianos (artistas australianos, atores e diretores) são, como direi?, estranhos. Russell Crowe enfrentou um processo nos EUA por agressão a um fotógrafo (acho que foi fotógrafo). Ao juiz, ele pediu desculpas, fez o acordo de indenização e arrematou tudo isso com uma confissão muito cândida – disse que, em seu país, os dois teriam resolvido a situação com um par de socos e um aperto de mão. Ou seja, Russell Crowe, por melhor ator que seja, ainda não saiu do Velho Oeste, onde a ‘virilidade’ era testada assim. MG, Mel Gibson, fez uma declaração anti-semita recente e o mundo caiu sobre ele. Longe de mim querer defendê-lo, mas, num passado não tão remoto, MG também andou disparando seu verbo contra homossexuais e não me lembro de nenhum teólogo ter vindo a público para dizer que gays, afinal, também são filhos de Deus. E o próprio Mel fez O Homem Sem Face, seu primeiro longa, que é o relato ‘sensível’ da amizade de um homem maduro (e de rosto deformado) com um garoto. Se aquilo não era uma metáfora do homossexualismo, mesmo sem contato físico, não sei o que mais poderia ser. Ou seja – a tal homofobia de MG me pareceu muito contraditória, o que me leva a uma observação. Freqüento um meio que é, digamos, ‘intelectual’ e no qual as piadas de negros, gays e aleijados são freqüentes, até com certa crueldade, mas não ouço muitas piadas sobre judeus. Ainda bem! A última que me contaram, é verdade que um pouco atrasada, é um horror – um importante jornalista e escritor (gaúcho, que não o Luiz Fernando Verissimo, pelo amor de Deus) teria dito que a diferença entre Collor e Lula é que o primeiro é bonito e tem os dez dedos das mãos. Socorro! Nestas horas, acho que os gringos não estão totalmente errados ao defender a correção política. Não achei, tonto que sou, que A Paixão de Cristo fosse anti-semita. Havia uma discussão, mais política que teológica, no interior do templo, mas Mel era muito mais duro com os romanos – os imperialistas conquistadores da Judéia, transformados em figuras deformadas dos quadros de Bosch e Brueghel. Era impressionante ver a destruição física do seu homem chamado Jesus, em cuja cara, transformada numa massa sanguinolenta, havia aquele olho, um só, dando um testemunho terrível da consciência contra a barbárie. Diante de A Paixão de Cristo, de novo acho que só eu fiz uma ponte entre aquele olho e o olho aberto do Che morto, acusador e doloroso. Muitos judeus eram solidários em A Paixão de Cristo e a destruição do corpo tinha a ver, muito mais, com uma atitude ideológica. Hoje mesmo, encontrei na capa do jornal a informação de que um punhado de jovens foi barbarizado pelo tráfico, no Rio. Essa violência praticada contra o corpo é um dos flagelos do mundo atual, cabendo a você decidir se Apocalypto a critica ou simplesmente endossa. É interessante que MG, fundamentalista cristão, como é, seja tão obcecado pela barbarização do corpo, mais do que pelo anti-semitismo. E na Paixão, além do olho do Cristo, existe o de Deus, no extraordinário último plano, cujo ângulo é cósmico – a crucificação e a ressurreição são vistos de cima, da perspectiva, se é que existe uma, do Senhor. Estamos acostumados a debater a culpa do homem, mas a de Deus? Só depois de assistir à Paixão percebi que, também em O Homem Sem Rosto, é o olho do personagem que fala e nos informa, a despeito de sua cara deformada e que isso remete ao fato de que a empresa produtora de MG, a Icon, tem como símbolo, um olho – que vai voltar em Apocalypto, mas isso é assunto para daqui a pouco. O post está ficando comprido demais.