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Cultura » Apertem os cintos!

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Luiz Carlos Merten

24 Fevereiro 2008 | 11h10

Na série confissões escandalosas do Merten, tenho umas para fazer, agora. Já que ‘Desejo e Reparação’ não ganha o Oscar de melhor filme – mas, se ganhasse, a academia podia fazer uma composição interessante, premiando a direção do Julien Schnabel -, acho que seria mais corajoso premiar o ‘Juno’ do que ‘Sangue Negro’ e ‘Onde os Fracos não Têm Vez’. Explico-me. ‘Juno’ é uma comédia teen, é o maior sucesso de bilheteria entre os indicados e, se vocês pensarem bem, vão ver que o roteiro de Diablo Cody e a direção de Jason Reitman conseguem ser ‘ligeiramente’ subversivos (já que todo mundo desembestou de usar ‘Ligeiramente grávida’ como titulo para as matérias sobre o filme). Existe ali um olhar crítico (e sincero) sobre os personagens, muita ironia em relação à família e à escola e, falando de temas como virgindade, gravidez na adolescência, aborto e adoção, ‘Juno’ foge ao moralismo, propondo um desfecho que é a negação de mais de um século de comédias teens de Hollywood. E tem a atriz, Ellen Page, que é maravilhosa. Não sei se já deixei claro nos textos que escrevi sobre ‘Sangue e Negro’ e ‘Onde os Fracos não Têm Vez, mas nutro um sentimento ambivalente entre esses dois filmes. Começo achando que são bons, mas se penso muito eles despencam. Claro, são filmes ‘sérios’ e o segundo, dos irmãos Coen, é o favorito de toda a crítica. Acho impressionante aquele retrato de um personagem megalômano que o Paul Thomas Anderson faz em ‘Sangue Negro’, mas de todos os filmes dele é o que me parece mais ‘seco’. Pegando carona no fato de que trata de poços de petróleo, eu construiria a minha metáfora de que o poço do Anderson esvaziou, secou (o realismo do filme me parece ‘fossilizado’, ao contrário da força de ‘Magnólia’; lá havia mais vida). ‘Onde os Fracos’ é maravilhoso como western de crime e horror, Javier Bardem faz aquele personagem com toda a bizarrice dos Coen, mas, se eu começo a pensar na reflexão sobre o mal na sociedade dos EUA, acho aquilo, para dizer a verdade, sabem o quê? Uma pobreza, uma simplificção. O deserto, de onde sai o dinheiro – qual seria o adjetivo, contaminado, condenado? -, provoca o surgimento do personagem de Javier, a sua entrada na cidade, a travessia da fronteira. Acho que o tema de ‘Onde os Fracos não Têm Vez’, no limite, é a fronteira. Essa terra de ninguém onde vivem pessoas que não pertencem a lugar nenhum, onde os gêneros se misturam (western e horror, comédia e crime) e onde o bem e o mal ficam nebulosos – exceto pelo Javier Bardem, que Woody Harrelson compara à peste bubônica -, tudo aquilo me parece mais insólito do que denso. Os Coens viraram gênero de si mesmos sabem agradar seus críticos. É preferível que ganhe ao ‘Sangue Negro’, mas não seria uma vitória arrebatadora. Ah, sim, ‘O Escafandro e a Borboleta’ ganhou tantos prêmios que é forte candidato ao Oscar de filme estrangeiro, mas eu, mesmo gostando do flme do Schnabel, torço por ‘Beaufort’, de Joseph Cedar, que no ano passado foi premiado em Berlim – olha o ‘Tropa de Elite’ no Oscar do ano que vem, gente. ‘Beaufort’ vai além do filme de guerra e, também tratando de fronteiras (um enclave israelense no Líbano), faz uma viagem muito mais forte pelo interior de seus personagens. Tem um, que não se considera habilitado para comandar aqueles homens que vivem ali uma situação de vida ou morte, que é uma coisa de louco. Dostoievski (ou Shakespeare?) no Oriente Médio? ‘Beaufort’ tem uma sessão hoje no Centro de Cultura Judaica, na Oscar Freire. Não sei o horário, mas alguém pode nos ajudar a descobrir, por favor.