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Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2006 | 14h08

A APCA de Nova York, a Associação dos Críticos de lá, também escolheu ontem os melhores filmes do ano. A escolha é importante porque, somada à do National Board of Review e do Globo de Ouro (que ainda vai sair, na quinta) aponta para tendências que vão se refletir no Oscar. Nesta altura, parece improvável que Helen Mirren, por The Queen (A Rainha), e Forest Whitasker, por The Last King of Scotland, deixem pelo menos de concorrer e, quem sabe, ganhar os prêmios da Academia de Hollywood, tal é a unanimidade em torno da dupla. Eles também venceram em Nova York e Scorsese, como no National Board, foi melhor diretor por Os Infiltrados. A grande diferença é que o Board, como os críticos de Los Angeles, apontou A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers), de Clint Eastwood, como melhor filme e os nova-iorquinos preferiram Vôo United 93, de Paul Greengrass, que me deixa com o pé atrás, porque acho manipulador demais. Mas o que mais gostei, por parte dos críticos de Nova York, foi a escolha deles para o melhor filme estrangeiro. Que Almodóvar, que nada! Eles ignoraram Volver e escolheram um filme francês que tem quase 40 anos, mas nunca havia estreado comercialmente nos EUA – L’Armée des Ombres, de 1969, foi lançado no Brasil como O Exército das Sombras. Melville é um dos grandes da história do cinema francês por seu ciclo de policiais. Técnica de Um Delator, com Lino Ventura e Jean-Paul Belmondo, e O Samurai, com Alain Delon, são maravilhosos. Melville possuía o segredo de depurar suas narrativas e estilizá-las, filmando tanto quanto possível em estúdio, a ponto de torná-las abstratas como os maiores filmes de Bresson. Sempre fui louco por O Samurai e por Un Flic (Expresso para Bordeaux), com Delon e Catherine Deneuve, cujo artificialismo e teatralidade excitam minha imaginação. O Exército das Sombras, que os americanos estão descobrindo com atraso, passa-se durante a 2ª Guerra Mundial e traz Lino Ventura e Simone Signoret numa soturna história sobre a resistência, com os códigos de coragem e honra que atraíam Melville (e que ele absorveu dos clássicos americanos de ação que formaram seu ideário estético e moral). O detalhe é que Melville integrou a Resistência Francesa e o filme tem muito de sua experiência pessoal na luta contra o nazismo.