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Cultura » Ao vivo, com Branca de Neve

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Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2009 | 21h15

LOS ANGELES – Pela procedencia, voces jah sabem onde estou. Para ser mais exato, deveria ter colocado Universal City. Vim para uma junket dupla, comemorativa dos 70 anos da premiacao de `Branca de Neve` com um Oscar especial. O classico de Walt Disney esta sendo lancado em DVD e blu-ray, numa versao restaurada que ficou uma beleza e com horas de extras. Soh a visita virtual ao Hyperion, o velho estudio no qual o filme foi produzido, jah vale a pena. Combinada com esta junket, houve outra sobre o retorno da Disney a animacao tradicional. Em Cannes, em maio, John Lasseter jah falara um pouco sobre `The Princess and the Frog` e agora pudemos ver pouco mais de meia hora desse trabalho muito bonito. Embora a aplicacao da cor continue sendo feita por computador, `The Princess` marca o retorno ao desenho manual, nao computadorizado, exatamente como em `Branca de Neve`. Falei com diretores (Ron Clemens), animadores (Andreas Deja) e houve um Q&A, pergunta e resposta, com o proprio Lasseter, que eh sempre um cara muito bacana de se falar, por seu entusiasmo `juvenil`. Ele admite que, aos 52 anos, a animacao nao lhe permite amadurecer – permanece um garoto, cercado por garotos, muitos deles de cabelos brancos, que compartilham seu amor pelo desenho animado. Eh uma ironia que o homem que estabeleceu a nova era da animacao computadorizada, com `Toy Story`, tenha voltada a Disney, o mais tradicional dos estudios, para revitalizar o 2-D, o handrawing, o desenho feito a mao. O material mostrado eh muito bonito e dah para botar feh no filme que parece feito sob medida para pegar carona na era Obama. Afinal, hah dez anos, desde `Mulan`, a Disney nao produzia mais animacoes com princesas. `The Princess and the Frog` nao apenas reabre agora esta vertente como a princesa eh negra. Lasseter nega o senso de oportunidade. Diz que o projeto jah vinha sendo desenvolvido hah tres anos e meio e quem dissesse naquela epoca que o proximo presidente norte-americano seria negro, com certeza seria chamado de louco. Poderia falar bastante da nova animacao, que chega num momento de euforia do mercado pelas novidades em 3-D, principalmente nessa midia. `A Era do Gelo 3` eh o recordista do ano no Brasil e `Up` tambem estreou arrebentando. Estou falando no Brasil, mas o fenomeno eh mundial e aqui fora eh o contrario – `Up` fatura mais do que `A Era do Gelo 3`. Entre outras coisas, o 3-D costuma ser apresentado como a arma – uma das – da industria contra a pirataria. `A Princesa e o Sapo` propoe uma marcha reh. Interessante, como material de reflexao. Mas jah que voltamos ao desenho tradicional, um dos marcos dessa midia – `o` marco – eh justamente a historia dee Branca de Neve e os Sete Anoes. Nao sabia que teria o prazer de encontrar aquela que foi a modelo viva de Branca de Neve. Disney estava fazendo um filme avancado para a epoca e seus animadores precisavam de uma referencia humana para a personagem. A escolhida tinha 13 anos, Marge Champion, que depois virou uma lenda norte-americana. Bailarina e cantora, formou dupla com o marido coreografo e diretor, Gower Champion. Eh uma velhinha simpatica e falastrona. Estava num grupo, fiz lah minhas duas perguntas, mas na hora de ir embora me deu de perguntar para ela sobre a era de ouro dos musicais e sobre um diretor que acho pouco valorizado, George Sidney. Marge comecou dizendo que nunca trabalhou com ele, mas nao porque nao quisesse. George era um amigo querido, seu vizinho. E ela comecou a contar historias e a rir, e a contar mais historias e a se emocionar. A assessora quase me bateu, querendo cortar o clima, porque um outro grupo jah estava sentado, esperando por Marge. Esses momentos significam muito para mim. Agora mesmo, estah a venda no Brasil o DVD de `Pal Joey`, Meus Dois Carinhos, um musical que Sidney fez na Columbia, com Frank Sinatra no papel titulo (original), esse sujeito que, em Las Vegas, fica dividido entre duas mulheres. Na epoca, segunda metade dos anos 50, pouco antes, Howard Hawks fizera `Os Homens Preferem as Loiras`, opondo a morena Jane Russell a loira Marilyn Monroe. Sidney mostra seu heroi dividido entre a loira Kim Novak e a ruiva Rita Hayworth. O filme tem um numero sensacional – `The Lady Is a Tramp`, que Sinatra canta para Rita. Nao gosto muito de musicais. Quer dizer – nao gosto dos musicais de Botelho e Mueller, eh assim que se escreve?, clonados de um modelo da Broadway que nao me entusiasma (e `Avenida Q` eh o OH de ruim). Mas os musicais dos quatro mosqueteiros do genero – Minnelli, Donen, Cukor e Sidney -, varios deles me encantam. George Sidney! Marge Champion! Quando eu ia imaginar que conversaria com Branca de Neve?