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Ao Velho, com carinho

Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2007 | 08h31

Olá! Aqui estou eu de volta a São Paulo. Não consegui postar nada nos meus três, na verdade dois, dias em Nova York, porque voltei ontem, num vôo diurno, que deveria ter saído às 9h30 (horário local), mas atrasou quase três horas. A desculpa da TAM é que a mudança de horário levou a um ajuste da malha aérea. Uma coisa tão rara, não é? A mudança de horário ocorre todos os anos, praticamente no mesmo dia, e essa gente ainda não aprendeu – ou será só desculpa? Nestes três dias fora do ar (ontem fiquei o dia todo no avião), não tive tempo de comentar a morte de Paulo Autran com vocês. Escrevi um texto para o Caderno 2 que alguns de vocês devem ter lido. Paulo Autran foi um ator completo, de teatro, TV e cinema. Fez poucos filmes e, até onde me lembro, nunca na pele do protagonista – só uma vez -, mas isto não o impede de fazer parte da história do cinema brasileiro por seu papel como o ditador Diaz, de Eldorado, em ‘Terra em Transe’. Adoro a história que o próprio Paulo contava – ele achava que estava tudo muito exagerado, tentava ser minimal, mas Glauber, de trás da câmera, fazia a mímica, dizendo de forma clara, mesmo sem som, para que ele entendesse – ‘Mais! Mais!’ Estou agora aqui na redação do Estado. Daqui a pouco vou ao Arteplex para assistir a ‘O Passado’, de Hector Babenco, que traz o último papel de Paulo Autran. O filme abre na quinta a Mostra Internacional de Cinema. Imagino que Leon Cakoff vá fazer alguma homenagem a Paulo Autran, até porque ambos foram companheiros de elenco em ‘O País dos Tenentes’, de João Batista de Andrade, no qual o criador da Mostra, por sua semelhança física, fazia Getúlio Vargas. Nos últimos tempos, em ‘A Máquina’ e ‘O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias’, ele só fez participações – e pequenas. Cao Hamburger queria que fizesse o velho judeu que acolhe o garoto em sua casa, no Bom Retiro, mas Paulo não podia, não tinha tempo nem condições físicas. Fez o avô, uma participação relâmpago. Na ‘Máquina’, ele era o Antônio velho que se encontrava com o Antônio moço (Gustavo Falcão) e vocês sabem quanto eu adoro o filme de João Falcão. Até onde me lembro, Paulo Autran foi o primeiro ator que vi no palco, em Porto Alegre, no tradicional Teatro São Pedro, levado por meu primo, Milton. Foi lá que vi a companhia Tônia-Celi-Autran e o Teatro dos Sete. Foi lá que vi Dulcina de Morais como Tia Mame. Mais tarde, vi Paulo Autran em ‘Depois da Queda’, de Arthur Miller, na montagem de Flávio Rangel, com Maria Della Costa como Marilyn. Paulo Autran nunca precisou de papéis extensos, para brilhar no cinema. Vi-o em todas as mídias em que trabalhou. Nas novelas, ele era inesquecível, formando dupla com Fernanda Montenegro. Ouvia-o no rádio, sempre em trânsito, no carro do jornal, recitando poesias e crônicas. Era um gênio, o Velho. Fecho os olhos tentando revê-lo e quem me vem é Glauber. Mais! Mais! Seria bom, se tivéssemos mais Paulo Autran, mas já foi um privilégio desfrutar de sua grande arte durante tanto tempo.