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Ao Postino, com, carinho

Luiz Carlos Merten

04 Junho 2014 | 10h13

Completam-se hoje 20 anos da morte de Massimo Troisi. Meninos, eu vi. No começo dos anos 1990, eu fazia a cobertura do Festival de Veneza para o Estado. Estava lá quando houve a première de Il Postino, que a Mostra Cinematografica transformou em ommaggio a Troisi. Lembro que foi uma cerimônia emocionante. Estavam todos – amigos, a mãe, o diretor Michael Bradford e o escritor Antonio Skármeta. Il Postino, lançado no Brasil como O Carteiro e o Poeta, virou um fenômeno mundial. E é um filme lindo. Troisi foi indicado para o Oscar de melhor ator – que outro italiano, Roberto Benigni, ganhou, anos mais tarde, por A Vida É Bela. Troisi sofria de uma doença congênita do coração. Morreu novo, aos 41 anos, em 4 de junho de 1994. Era um homem doce. Tinha grandes olhos tristes. Um cômico como o lendário Totò. Ou, na grande tradição americana, uma mistura da ingenuidade e pureza de Carlitos com a máscara trágica de Buster Keaton, o homem que nunca ria. Massimo Troisi foi ator, roteirista, diretor. O Carteiro e o Poeta, sobre a relação entre Pablo Neruda, no período em que viveu exilado na Itália, e o carteiro que lhe entregava a correspondência, é o filme pelo qual talvez seja mais lembrado. O carteiro é tímido. Ama a bela Beatrice, mas ela lhe parece inatingível. O poeta, Neruda, lhe fornece as ferramentas, as palavras, para que a cative, e seduza. Mas o Postino não é Cyrano de Bergerac. A poesia o transforma e transfigura. Faz dele um outro homem. O papel, como o filme, é maravilhoso. Philippe Noiret faz o poeta e Beatriz é a deusa Maria Grazia Cuccinota – xiii, errei o nome; na matéria de hoje do jornal escrevi Maria Pia -, mas o filme é de Massimo Troisi. Antes, ele havia feito o projecionista do cinema de Splendor e o Polichinelo de A Viagem do Capitão Tornado, ambos de Ettore Scola. Capitão Tornado é o ‘meu’ Scola. Uma magnífica homenagem ao teatro, à commedia dell’arte. O nobre arruinado Sigognac (Vincent Perez) junta-se à companhia itinerante que passa por seu castelo. O grupo representa, Sigognac puxa da espada, sempre que é preciso. Não é um grande espadachim, mas o criado, Pulcinella/Polichinelo, o exalta em narrativas mirabolantes, até como forma de se autopromover. Capitão Tornado e O Carteiro e o Poeta são filmes sobre a fabulação, sobre o poder da palavra. E, embora só um faça a apologia do teatro, nos dois o herói tem de fingir o que não é para poder vir a ser. O próprio Michael Radford me contou, em Veneza – a entrevista saiu no Estado -, que conhecia Massimo Troisi desde os anos 1980, quando o contactou para um projeto sobre prisioneiros italianos num campo na Inglaterra, durante a 2.ª Grande Guerra. Nunca deixaram de se encontrar e corresponder, e das múltiplas conversas, buscando um projeto comum, chegaram ao livro de Skármeta. Acabo de voltar da Itália. Estou em lua de mel com Firenze, com Sienna e sua deslumbrante catedral. A Itália de Dino Risi, de Luchino Visconti – e de Dante, de Michelangiolo e Botticceli – mais que nunca pulsa em meu coração. É um bom momento para lembrar Massimo Troisi e o quanto lhe devo no escurinho do cinema.