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Luiz Carlos Merten

14 Dezembro 2006 | 15h40

Recebi um e-mail com um texto atribuído a Ivana Bentes, no qual ela, falando de O Céu de Suely, critica a falta de imaginação da crítica de bater sempre nas referências sabidas. Digo atribuído porque não veio a referência de onde nem quando ela publicou isso. Quem me mandou o e-mail de certo esperava ver cenas de sangue no blog, porque já andei falando da Ivana a proposito do malfadado debate da crítica, no Festival de Brasília. Não quero morder a isca, mas já mordendo, é no mínimo curioso que a Ivana, dizendo que Suely não tem nada a ver com Vidas Secas nem Nelson Pereira dos Santos e Antonioni, de certo considera uma originalidade achar que o filme do Karim Aïnouz está mais para Wim Wenders. A obviedade, no caso, é esta, porque é claro que o filme está mais na tradição de estrada do Wenders – escrevi isso no Caderno 2, não no blog. Mas achei tão inesperada, talvez porque não tivesse pensado nela, a referência a Vidas Secas (não no sentido que a Ivana pensa) e ao Antonioni do sertão que assimilei o conceito do Ely Azeredo, citado pelo Arnaldo Jabor, sem ter lido o texto e apenas ouvindo o Jabor no rádio. Nesta história toda, a crítica à falta de imaginação da crítica respinga sobre o Azeredo, que estava lá tranqüilo, no canto dele. E eu, pessoalmente, respeito muito mais o trabalho do velho Azeredo, que vem consistente desde os anos 60 – mesmo discordando dele em vários momentos –, do que a conceituação da cosmética da fome que tanto barulho fez na mídia, nos últimos anos.