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Luiz Carlos Merten

01 Agosto 2007 | 09h09

Estou seis horas à frente do Brasil, aqui em Israel. São quase 3 da tarde e o calor é infernal em Tel-Aviv. Me informaram que será ainda pior em Haifa, para onde vou daqui a pouco. Socorro! Antonioni. Ainda não falei sobre ele e preciso explicar o que disse ontem – que experimentava uma admiração mais fria, mais intelectual do que por Bergman. Mas é verdade. Tive oportunidade de conviver algumas horas com Antonioni, quando esteve em São Paulo, já silenciado pela doença. Quando o entrevistei, a mulher respondia por ele e Antonioni só mexia com a cabeça. Vi ao seu lado O Lobo, de Mike Nichols, com o ator dele em O Passageiro – Profissão: Repórter, Jack Nicholson. Mal olhava para tela. Queria registrar suas emoções. Antonioni, imobilizado naquele corpo que já não respondia, sorria principalmente nas cenas em que o fato de ser lobisomem aumentava a potência de Jack. Tinha tudo a ver. No começo dos anos 50, no quadro da nova Itália que os americasnos ajudaram a reerguer, economicamente, por meio do Plano Marshall, o neo-realismo clássico tornou-se obsoleto. Sofreu mudanças. Antonioni e, depois, Fellini introduziram o chamado neo-realismo interior, da pesszoa humana, transferindo a ênfase do social para o existencial. Antonioni virou investigador da burguesia, da sua solidão e do vazio existencial. Só uma vez filmou um operário (em O Grito). No geral, a arte de Antonioni investiga o andar de cima da sociedade, os ricos. Se são ricos e belos, se têm tudo o que conforto material pode fornecer, por que são infelizes? Por que não se comunicam? A alienação burguesa foi o grande tema de Antonioni. A trilogia formada por A Aventura, A Noite e O Eclipse virou um marco do cinema. Em A Aventura, Lea Massari some no começo e Monica Vitti e Gabriele ferzetti iniciam uma relação enquanto a procuram. Por que ela desaparece? A resposta veio no fim de O Eclipse. Não era um fenômeno astronômico. era o eclipse da raça humana. O vazio e a incomunicabilidade chegam a um ponto que Monica Vitti e Alain Delon somem e restam somente os lugares por onde eles passearam, espaços desertos. Não gosto tanto de O Deserto Vermelho porque a relação de Monica com Richard Harris me parece neurótica demais. Mas amo Blow Up – Depois Daquele Beijo, com suas pesquisas de linguagem (aquele jogo de tênis sem bola no final). Depois, Antonioni partiu para investigar o mundo, filmando nos EUA, na China. Em O Mistério de Oberwald, foi dos primeiros a criar uma estética do vídeo. Gosto muito de Investigação de Uma Mulher, da cenas em que o personagem, um cineasta, carrega a mulher para um lugar deserto, podre e se desculpa dizendo que é uma deformação profissional. E acho lindo, apesar de ser irregular, Além das Nuvens. Há ali um erotismo que me comove. Todo o cinema de Antonioni possuía erotismo. Suas mulheres eram maravilhosas – Lucía Bosè, Jeanne Moreau, Monica Vitti, Monica Vitti, Monica Vitti. Nunca soube porque terminaram. Porque tudo termina, como n os filmes dele. Devo muito a Antonioni no cinema, mas é, como disse, uma admiração intelectual, racional demais para vir impregnada de emoção. Chorei por Bergman, qual é a vergonha de admitir? Não chorei por Antonioni, mas estou triste. Foi um grande artista. Faz parte das grandes transfrormações ocorridas no cinema, nos anos 60. Antonioni ganhou o Leão de Ouro (por O Deserto Vermelho), a Palma de Ouro (por Depois Daquele Beijo) e até um Oscar especial, entregue por Jack Nicholson, que fez um discurso lindo. O homem que transformou o silêncio numa obra de arte estava reduzidio ao silêncio, privado da palavra, pela doença. Privado da palavra, sim. Reduzido ao silêncio, não. Antonioni continuou se expressando por meio do cinema.

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