As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Antônio Pompêo e a felicidade guerreira de Zumbi

Luiz Carlos Merten

06 Janeiro 2016 | 10h53

Entrevistei ontem pela manhã Gabriel Mascaro e, à noite, encontrei-me com os atores de Boi Neon na Reserva Cultural, após a apresentação que eles fizeram, na pré-estreia do filme que entra dia 14. Juliano Cazarré e Maeve Jinkings foram ótimos. Conversamos sobre cinema, novela. Ambos estão em A Regra do Jogo e eu andei vendo dois ou três capítulos da novela de João Emanuel Carneiro, enquanto ‘convalescia’ de meu malfadado concurso de cachaça. Sorry, mas achei bem ruim. A tal facção não me prendeu e a técnica da diretora Amora Mautner de soltar a câmera enquanto todo mundo fala nas cenas de refeições podia ser novidade em Avenida Brasil, mas agora é cacoete, repeteco. Tenta outra, Amora. Só me diverti com a impotência do personagem de Juliano, e o cara é um cavalão na vaquejada do Mascaro, e achei interessantes as cenas com Maeve e seu amado misterioso, cujo passado ela vai descobrir – e vem coisa por aí, aguardem. Saí da Reserva, chamei Dib para jantar e fomos ao Consulado da Bahia. Contei das minhas entrevistas do dia – também falei com Robert Guédiguian de Paris, pelo telefone – e o Dib me deu um corte. E o Antônio Pompêo, nada? Como assim, nada? E o Dib me contou que o Pompêo foi encontrado morto em casa, graças a uma vizinha que chamou os bombeiros. Estava morto há dois dias, talvez, porque já exalava mau cheiro. Morava sozinho – eu moro sozinho, e gosto, mas esse abandono me dói. Antônio Pompêo era um homem bonito e um ator que não cheguei a acompanhar na TV, onde teve, talvez, a maioria de seus papeis. Mas fui seu seguidor no cinema. Cacá Diegues, Hugo Carvana, Murilo Salles, Miguel Faria Jr., Lúcia Murat – todos o colocaram em seus filmes. Xica da Silva, Quilombo, Se Segura Malandro, Nunca Fomos tão Felizes, Seja o Que Deus Quiser, O Xangô de Baker Street, Quase Dois Irmãos. Fui procurar na rede e descobri que seu último filme foi com Moacyr Goes, O Homem Que Desafiou o Diabo, mas tenho de admitir que só me lembro do Marcos Palmeira, como protagonista absoluto (Zé Araújo, Ojuara). Antônio Pompêo era da linhagem de Zózimo Bulbul, que também morreu não faz muito tempo. Foi um batalhador contra o racismo, tendo sido um dos idealizadores do Projeto A Cor da Cultura, para a formação de docentes e estudantes em História e Cultura afrobrasileira, e também foi presidente do Centro de Documentação e Informação do Artista Negro. Zózimo, Pompêo, Antônio Pitanga, Milton Gonçalves, tenho certeza de que esses caras foram/são faróis para as gerações que vieram depois, como Joel Zito Araújo e Lázaro Ramos, que são combatentes da negritude, pelo espaço do afrodescendente na sociedade brasileira. Antônio Pompêo foi o próprio Zumbi em Quilombo. Não consigo me lembrar do filme de Cacá sem que me venha a trilha de Gilberto Gil – “A felicidade do negro é uma felicidade guerreira…”