Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Antonia

Cultura

Luiz Carlos Merten

09 Fevereiro 2007 | 21h14

BERLIM – Jah eh quase meia-noite aqui e eu preciso dormir para me recuperar deste dia tao atribulado, mas nao posso deixa deixar de postar alguma coisa sobre Antonia, ateh poprque o filme de Tata Amaral estreou hoje no Brasil, simultaneamente com sua exibicao na Berlinale, na mostra Generation 14Plus. Quem me acompanha deve lembrar-se que, no Festival do Rio, disse duas ou tres coisas pouco elogiosas sobre Antonia. Tenho de me retratar. Gostei de Antonia e gostei mais ainda da forma como foi recebido em Berlim. A sessao foi no Zoo Palast, o antigo palacio do festival. Havia gente pelo ladrao (xoh, nao posso nem escrever a palavra, jah que tive hoje a experiencia, que jah contei, de ter sido roubado). Foi um publico entusiasta, que aplaudiu bastante e ouviu com atencao as respostas da diretora durante o que eles chamam de Q&A (Question & Answer, Pergunta e Resposta). Tata disse que Antonia comecou a nascer na cabeca dela em 2001, quando fez algumas entrevistas para seu documentario sobre o hip hop e ouviu de uma negra pobre, baixinha, gordinha e com o cabelo duro que vivera sempre com complexo de inferioridade por nao ter nascido loira, linda e alta como a Xuxa, que virou `a` referencia para todas as criancas e, depois, as mulheres de sua geracao. Tata fez o filme pensando neste desabafo e tambem pensando em retratar a cultura da periferia, do negro da periferia, de uma forma positiva. Como ela disse, e foi muito aplaudida, queria ir contra o estereotipo de que negro jovem soh aparece na TV como criminoso. Como bonzinho, decente, nunca eh o astro, papel reservado aos brancos. Um espectador quis saber de Negra Li, que faz a Preta, se ela havia sido discriminada no hip hop por ser negra. Ela respondeu que, se sofreu preconceito, eh coisa do passado, porque o o filme agora eh um ato de luta, uma resposta dela e suas parceiras no grupo. Tata disse mais uma coisa emocionante. Que filmou na Vila Brasilandia, com apoio da comunidade. A Brasilandia sempre foi considerada um dos lugares mais violentos de Sao Paulo, mas agora os proprios moradores estao retomando a auto-estima e dizem que teem orgulho de morar lah. Antonia nasceu como projeto de cinema, foi para a TV (como serie) e soh agora chega aas salas. Como diz a diretora, eh uma tentativa de somar publico para o cinema brasileiro. Quando abracei Tata, no meio daquele borburinho, e lhe disse que ela estava fechando um ciclo em Berlim, ela me olhou surpresa. `Foi aqui que nos encontramos pela primeira vez, quando tu (nao disse voceh) trouxe a Berlim Um Ceu de Estrelas.` O filme abriu um ciclo, e uma trilogia sobre as idades da mulher, que agora termina em Berlim. Ela me olhou e respondeu – `Juro que havia esquecido.` A organizacao do festival nao esqueceu. Tata foi recebida com muito carinho e as garotas de Antonia cantaram a capela (Antonia Brilha, Killing Me Softly, Sararah (ou Saravah) Crioulo (me deu um branco). O cinema quase feio abaixo. Pela terceira vez no dia, depois de O Ano em Que Meus Pais Sairam de Ferias, aplaudido na sessao de imprensa, ovacionado na sessao oficial,o Brasil foi coroado por aplausos em Berlim. Tomara que o publico brasileiro, que jah consagrou Antonia, a serie, na TV, agora faca o caminho inverso e lote os cinemas.