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Luiz Carlos Merten

27 Abril 2012 | 09h03

RECIFE – Cá estou eu, acrescentando meu primeiro post do CINE PE e já me queixando. A coisa começou mal, para mim, principalmente. Estava assistindo, ontem à noite,  à apresentadora do festival, a quem adoro – e nunca nem falei com ela; é a melhor, em todos os eventos do gênero do Brasil, a que compareço -, quando me dei conta de que havia pisado na bola. Ela chamou para o lançamento, hoje, do livro sobre os primeiros 15 anos do Cine PE – Festival do Audiovisual. Imediatamente, dei-me conta. Havia colocado 14º festival no terxto do jornal. Não foi por falta de esforço de checar, mas o logo do festival, a página da internet nem o banner no palco, nada traz a data, o número. Quando encontrei o romano, na minha pesquisa, só pode ter isso, devo ter-me enganado. Ou então, Freud explica, pode ter sido um movimento da mente. Faltei aos dois últimos anos do Cine PE, porque num ano o festival batia com Cannes e no outro, acho que há dois, havia o evento do Príncipe do Deserto em Londres, também emendado com Cannes. Para mim, portanto, é o 14º festival. Foi isso? Não sei. Outro erro foi pior ainda. Falava do ‘Luz nas Trevas’ e, logicamente de Nei Matogrosso na reunião de pauta do ‘Caderno 2’ e alguém observou – lembro perfeitamente quem foi, mas não é o caso de dizer -, que o ‘Nei’ seria  homenageado no Recife. Automaticamente, coloquei que o Cine PE deste ano homenageia Fernando Meirelles e Nei Matogrosso, mas fiquei em dúvida, se Nei era com I ou Y. Entrei no site, vi com Y e também que o festival homenageia Cacá Diegues, corrigi no texto, mas me passou olimpicamente o fato de que o Ney homenageado é outro, o Latorraca, o que faz, inclusive, mais sentido, pois é um homem do audiovisual, enquanto a trajetória de Nei Matogrosso (é com I? Preciso checar) se liga mais à música. Vejam que isso me assusta. Quando erro, e não por falta de pesquisa. Que obscuro movimento do inconsciente deve permitir essas falhas, que cometo comigo mesmo? Muito interessante. Nunca é tarde para voltar à análise, Merten. Mas prossigo, a noite ainda ia piorar, e agora ‘no’ festival. Achei os curtas legais, e um deles eu amo, ‘Qual Queijo Você Prefere?’. Saboreei mais uma vez o filme de Cintia Bittar, cujo nome espero estar acertando, com aquele diálogo dito por Amélia Bittencourt, uma atriz que, há uns 40 anos, faz parte do meu imaginário, no teatro e cinema. E entrou a grande atração da noite, talvez a maior desta edição do Cine PE. Breno Silveira trouxe para a abertura seu longa inspirado em canções de Roberto Carlos, ‘À Beira do Caminho’, com João Miguel como caminhoneiro que dá carona a um garoto que busca o pai em São Paulo. Saem de Petrolina e atravessam meio Brasil, no sentido inverso à grande viagem de Fernanda Montenegro e Vinicius de Oliveira em ‘Central do Brasil’, de Walter Salles. O caminheiro é João Miguel, o garoto é outro Vinicius, o Nascimento. Confesso que não sabia nada do filme e fiz essa ligação ao buscar informações para a minha matéria de abertura do Cine PE no ‘Caderno 2’. Acho que ela, a ligação. esteve mais na minha cabeça do que na de Breno. Sou um defensor ardente do seu cinema, e não apenas de ‘Dois Filhos de Francisco’, mas desta vez não sei se consigo emitir uma opinião. O filme começou me irritando, porque a rejeição de João Miguel ao menino não me convencia. Todas as soluções de cenas, de construção dramática, e olhem que o filme teve três roteiristas, mas tambémn a mise-en-scène me pareciam banais. E aí houve o problema do som, alguma coisa com transcrição de arquivo, já que a projeção foi digital. Cheguei a muidar de lugar na Sala Guararapes, afinal, um centro de convenções convertido em cinema. Quem sabe não era isso? Não melhorou. Não conseguia entender nada, eu que ouvira perfeitamente os diálogos dos curtas. O que estava acontecendo? Diálogos decisivos – o encontro de João Miguel com o presumível pai de Duida, o garoto, Ângelo Antônio – seguiram inaudíveis. Continuo sem saber o que falaram. Nestas condições, o melhor é ignorar a projeção de ontem e esperar para rever ‘À Beira do Caminho’. O filme estreia em agosto. Terei tempo (espero). Mas foi um anticlimax para começar o 16º Cine PE.