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Cultura » ‘Anônimo’?

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Luiz Carlos Merten

13 Novembro 2011 | 12h16

Há dias estou querendo acrescentar o post sobre ‘Anonymous’, o novo Roland Emmerich, que vi em Los Angeles. É curioso porque em Cancún, acho que há dois anos, quando o entrevistei por ‘2012’, o diretor disse que ia dar um tempo nos blockbusters. Queria fazer alguma coisa intimista e ‘pequena’. Bem, o filme sobre Shakespeare não é exatamente ‘pequeno’ e tem valido a Emmerich mais críticas do que qualquer outro de seus trabalhos. A polêmica está instalada. O filme trata como verdadeiras as suspeitas de que William não foi o autor das obras-primas que lhe são imputadas. O Shakespeare de Emmerich, na verdade, é um pândego e um aproveitador que só quer saber de vinho e mulheres. Não, para ser exato o filme mostra que era bom ator, para conseguire sustentar a farsa. O verdadeiro Shakespeare, cujo patrimônio intelectual é salvo da destruição por Ben Johnson – o autor de ‘Volpone’ –, era o Duque de Oxford e ‘Anônimo’ é pródigo em conspirações palacianas. Todo mundo caiu matando em Emmerich, mas, como personagem puramente fictício, confesso que achei Shakespeare um canalha em muitos momentos irresistível. Vai ser mentiroso e ter cara de pau assim no inferno. O melhor é o tratamento dado a Elizabeth (a 1ª). Vocês sabem como eu implico com essa deferência de Hollywood pela realeza britânica. Lavei minha alma, nem que tenha sido só de birra. Elizabeth é  interpretada, em duas épocas, por Vanessa Redgrave e por sua filha, Joely Richardson. Na ficção de Roland Emmerich, ela é manipulada por lorde…. Como era mesmo o nome dele? Richard Attenborough na versão de Shekkar Kapoor? Até aí, dá para engolir, mas, para os norte-americanos, deve estar sendeo insuportável ver uma Elizabeth com os dentes podres que Vanessa exibe. É uma performance de star, que me fez lembrar de Bette Davis como Catarina da Rússia em ‘Ainda não Comecei a Lutar’ (John Paul Jones), último filme de John Farrow, o pai de Mia. Com Joely, a provocação vai além. O Duque de Oxford, além de conquistar a rainha com as palavras, é literalmente f… pela virilidade. Numa cena em que a rainha surta por causa de seus conselhos – para Elizabeth, a função dele é de amante –, ele cala a boca da soberana fazendo-a se ajoelhar, e não para rezar. Hu-hui, que farra! Shakespeare é um tema amplo. Quando estreou o ‘Shakespeare Apaixonado’, de John Madden, um colega, gay de carteirinha, achou absurdo que Hollywood tecesse uma fantasia heterossexual sobre um cara que, segundo ele, pelos sonetos, era obviamente gay, ou, pelo menos, bissexual. Quando levei a história a John Madden, numa entrevista por telefone, ele disse que o assunto foi exausativamente discutido com Tom Stoppard, que co-assinava o roteiro. O propósito do filme era biografar o autor pela obra. Shakespeare, homossexual? Pan-sexual, isso sim. Não sei quando nem se ‘Anônimo’ vai estrear por aqui, mas que vai fazer barulho, vai. Indefensável, mas como prazer secreto, perverso… Ficará ao sabor de cada um.