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Cultura » Annie Girardot!

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Luiz Carlos Merten

28 Fevereiro 2011 | 17h55

Estou arrasado. Estava no ar, na Rádio Metrópole de Salvador, com Mário Kertész, quando ele me disse que Annie Girardot havia morrido. Annie Girardot! Sei que tendo a ser exagerado, quando amo, mas Annie, em ‘Rocco e Seus Irmãos’, tem simplesmente a maior interpretação feminina da história do cinema. Todo mundo sabe que eu tenho o clássico de Luchino Visconti no meu panteão particular. Para mim, é ‘o’ filme, da mesma forma que Annie é ‘a’ atriz. Ela morreu hoje de manhã em Paris, aos 79 anos. Estava internada numa clínica, vítima de Alzheimer. É incrível, mas nos últimos dias havia pensado muito em Annie Girardot. Em janeiro, em Paris, descobri sua biografia. Maria do Rosário Caetano, a sra. Luiz Zanin Oricchio, me havia contado a história da passagem de Annie pelo Uruguai. Ela deveria ter apresentado a peça ‘Master Class’, mas estava dispersiva e esquecia suas falas. Os organizadores do evento tentaram explicar o fato dizendo que havia sido estresse, jet leg, o escambau. Talvez tenha sido a primeira manifestação do Alzheimer. A história ocupa um dos capítulos do livro. Annie Girardot foi perdendo a memória, a consciência de si mesma. Vejam que tragédia – seu irmão, também vítima de Alzheimer, estava internado na mesma clínica. Ocorria de serem colocados lado a lado, sem jamais se reconhecer. Agora, na volta de Berlim, via Paris, comprei no aeroporto a biografia de Jeanne Moreau. Visconti teria escrito o papel de Nádia para ela, Jeanne. Digo ‘teria’, porque, quando entrevistei Suso Cecchi D’Amico, e foram muitas conversas, ela nunca me falou isso. Jeanne estava comprometida com outro projeto, Luchino queria uma estrela francesa e foi a chance de Annie. Não consigo sequer imaginar outra atriz como Nadia. O diálogo dela com Rocco, Alain Delon, quando ele, soldado, a reencontra na saída da cadeia. O rompimento, no alto do Duomo; a trágica aceitação do próprio destino, quando ela volta para Simone, que a estuprou; o ódio que cospe na cara dele, precedendo o assassinato. Annie Girardot recebeu o César, o Oscar francês de melhor atriz, por um filme que nunca vi – ‘Docteur François Vailland’, de Jean-Louis Bertucelli. Recebeu outro, de coadjuvante, acho que por ‘A Pianista’, de Michael Haneke, em que fazia a mãe de Isabelle Huppert. E ela foi melhor atriz em Veneza, em 1965, por ‘Trois Chambres à Manhattan’, de Marcel Carné. Tenho a impressão de que, além de Visconti, que a dirigiu também no teatro – ‘Depois da Queda’, de Arthur Miller –, Annie teve seus melhores papeis com Claude Lelouch. A cena final, sem diálogos, toda no rosto dela, de ‘Viver a Vida’, é excepcional. Emocionei-me muito lendo o livro sobre Annie Girardot. Alain Delon, que discursou num ato em sua homenagem, depois que ela já estava doente, lembrou a fase em que foram jovens e belos, sob Visconti. Havia uma camareira, não me lembro do nome, que cuidava dos dois, no set de ‘Rocco’, a pedido de Luchino. Talvez seja a origem da Fosca que, em ‘Vagas Estrelas da Ursa’, acoberta os amores incestuosos dos irmãos Jean Sorel e Claudia Cardinale. Durante a filmagem de ‘Rocco’, Annie e Renato Salvatori, que fazia Simone, apaixonaram-se loucamente. Casaram-se, tiveram uma filha. Ela nunca aguentou as traições do marido, que não conseguia ver rabo de saia. Ele lhe explicava que eram mulheres que não significavam nada. Ela deu o troco. Começou a sair com muitos (todos?) os homens. Feriram-se, a mais não poder. Separaram-se, mas não conseguiam deixar de se amar. Continuaram se reencontrando – tinham a filha –, iam e vinham, até a morte dele, por cirrose. Veio a doença dela. Paro um pouco e me lembro da entrada de Annie em ‘Rocco’. Ela irrompe na casa dos Parondi, fugindo do pai. Faz um jogo de sedução com os garotos, todos varões, filhos de Rosário (Katina Paxinou). Ela estende a perna como quem vai arrumar as meia. O efeito sobre os rapazes é elétrico. Dá quase para sentir a ereção no ar. Visconti fez repetir a cena muitas vezes. James Gray, que, como eu, ama ‘Rocco’ (e Visconti), fez referência à cena quando Gwyneth Paltrow entra correndo na vida de Joaquin Phoenix em ‘Dois Amores’. Se a gente for pensar, racionalmente, Annie já tinha morrido há tempos, desde que, sem memória, deixou de ser Annie Girardot. Lembro-me de meu amigo Tuio Becker. Existe um céu? Gostaria de acreditar que sim. Tuio estaria esperando por Annie, para dizer quanto a amávamos.

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