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Luiz Carlos Merten

26 Maio 2009 | 20h05

PARIS – Havia me esquecido de que Goran Bregovic, o grande compositor dos filmes de Emir Kusturica, dava um concerto hoje à noite no Grand Rex. Descobri isso quando fui ao cinema para assistir a ‘Star Trek’, ainda antes de Cannes. Corri ao Grand Rex, cheguei lá estava o maior tumulto e não havia a menor chance de conseguir um ingresso. Fiquei p…, mas resolvi jantar e ir ao cinema, já que ofertas de filmes não faltam nessa cidade que é a capital mundial da cinefilia. Como sempre faço,conferi antes de mais nada os cinemas de arte do Quartier Latin. O Champô apresenta um ciclo dedicado à nouvelle vague, claro que para comemorar os 50 anos do movimento, mas tomando como referência o livro, recém lançado, de Antoine de Baecque ‘Portrait d’Une Jeunesse’. Quase caí duro ao descobrir que, às 8 da noite, e já eram 8(20)h30, haveria uma sessão de ‘Pierrot le Fou’, seguida de rencontre com Baecque e Anna Karina. Comi voando e me joguei para o cinema. Estava lotado, mas se houvesse uma chance – se saísse alguém – a proprietária me deixava entrar. Só que ela prometeu a mesma coisa a outras quatro pessoas. Fiquei rondando por ali, os outros foram indo embora. Sobramos dois e ninguém saía da sala. Felizmente, a dona ou gerente se apiedou do velhinho brasileiro – mais de uma hora na porta – e deixou que eu assistisse de pé, num canto. Antes disso, já havia visto Anna Karina, que esperava o fim da sessão. Chapéu de homem, gabardine bege, calças e sapatos pretos e uma écharpe vermelha, a ex-senhora Godard envelheceu, mas mantém o charme. Ela atravessou a rua e sentou-se no café em frente com amigos. Fui atrás e sentei-me perto, a olhá-la. Em geral, não tenho o menor pudor. Ia chegar na cara dura e me apresentar – sou um jornalistas brasileiro, etc e tal, já nos encontramos uma vez, há muitos anos, no Rio… Não foi a timidez que me impediu de chegar, mas preferi olhar e viajar nas lembranças – de filmes de Godard e outros diretores, incluindo George Cukor, com quem Anna fez ‘Justine’ (e até onde me lembro justamente ela era a melhor coisa de um filme de resto pouco honroso desse grande cineasta). Anna Karina não contou nada sobre Godard e a nouvelle vague que fosse muita novidade para mim, mas adorei a soirée. Minha decepção por haver perdido o Bregovic revelou-se uma sorte. Estou só relatando. Mais tarde, se houver interesse de vocês, conto algumas coisas do encontro com Baecque e Karina. Enquanto isso… Alguma editora brasileira já se interessou em adquirir os direitos de ‘Nouvelle Vague – Portrait d’Une Jeunesse’? Seria bom se publicassem logo o livro, para aproveitar os 50 anos do movimento que mudou o cinema francês (e mundial) por volta de 1960. Quem domina o francês, de qualquer maneira, pode encomendá-lo, na Livraria Francesa ou (imagino) via Amazon.