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Luiz Carlos Merten

31 Março 2009 | 09h49

Sobrinho de Piolim, filho de Faísca – palhaços tradicionais de circo -, Anchizes Pinto começou na vida artística como acrobata, formando dupla com Mory. Naquele tempo, era chamado de Anky e foi assim que integrou o elenco da revista ‘Já Vi Tudo!’, estrelada por Mesquitinha e Natara Nery, no fim dos anos 40, se não me engano no Teatro Follies, em Copacabana. Quando Mesquitinha adoeceu, no meio da temporada, Anky foi escalado para substituí-lo. Deu tão certo que foi saudado como grande revelação cômica. O próprio nome mudou e de Anky ele virou Ankito, em homenagem, a Oscarito. Daí para o cinema foi um pulo, embora ele tenha continuado acrobata. Ankito fez 50 e tantas – acho que 56 – chanchadas que pertencem à era de ouro do gênero, quando a Atlântida ditava as cartas no cinema brasileiro, mas, de uma maneira particular, nunca o achei muito divertido. Ankito, com certeza, me fazia rir menos do que Oscarito e Grande Otelo, e até Zé Trindade, com seu bordão ‘Mulheres, cheguei!’ Mas acho que não estou cometendo nenhum absurdo se disser que ele formava, com os três citados, os quatro mosqueteiros das chanchadas. Teríamos de falar tambénm das mulheres, Dercy Gonçalves, Zezé Trindade e a maior de todas, Violeta Ferraz, que faz parte das minhas memórias cinematográficas no desfecho de ‘O Petróleo É Nosso!’, quando ela diz a frase-título da chanchada de Watson Macedo, produzida em 1954, integrando o movimento social que fazia do gênero um espelho da realidade social brasileira (coisa que os críticos mais tarde ligados ao Cinema Novo se recusavam a admitir. Para eles, a chanchada era alienada, a estética da paródia de Carlos Manga, Watson Macedo e José Carlos Burle tinha pouco ou nenhum valor. O preconceito mudou de cara, mas continua.) Ankito morreu, aos 80 e tantos anos. Disse adiante que nunca o achei muito engraçado, mas a verdade é que havia nele uma melancolia, um jeito de criança grande, sem o escracho de Zé Trindade, que me lembrava um comediante inglês hoje esquecido, mas que eu via entre um Ankito e outro, quando a Rank distribuía a produção da Inglaterra no Brasil – Norman Wisdom. É curioso, mas quando penso em Ankito me vem colado o Norman. Aprendi a gostar dele tardiamente, quando integrou o elenco do terceiro episódio de ‘As Cariocas’, dirigido por Roberto Santos, em que Íris Bruzzi tem uma atuação antológica, o embrião de Leila Diniz e um dos grandes momentos de interpretação feminina da história do cinema brasileiro. Vieram depois os tributos prestados a Ankito por Júlio Bressane e Ivan Cardoso em ‘Brás Cubas’ e ‘O Escorpião Escarlate’. Ankito fez novelas, minisséries, apresentou um programa na Band. Sua morte de alguma forma põe um ponto final na história da chanchada.

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