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Cultura » Anjelica Huston, soberana em ‘Prizzi’

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Luiz Carlos Merten

11 Novembro 2008 | 13h36

Falei aqui no outro dia sobre Jonathan Demme e citei Oprah Winfrey, atriz de ‘A Bem-Amada’, dizendo que ela era excepcional em ‘A Cor Púrpura’, de Steven Spielberg. Sugeri que Oprah teria sido injustiçada no Oscar de coadjuvante de 1985, mas alguém – Celdani? Fábio Negro? – disse que nem f… A campeoníssima daquele ano foi Anjelica Huston, que venceu a estatueta por ‘A Honra do Poderoso Prizzi’, dirigida por seu pai, o grande John. Volto ao assunto, e por um motivo simples. Acabo de fazer um destaque para os filmes na TV de amanhã, no ‘Caderno 2’. Justamente ‘Prizzi estará sendo exibido à tarde – 14h30 –, no Cinemax. Viajei redigindo meu pequeno texto. Há 23 anos, Anjelica Huston tornou-se uma unanimidade e, desde então, fez filmes memoráveis que lhe deram trânsito na indústria como um nome palatável para o grande público (a Mortícia da série ‘Família Addams’) e a crítica mais exigente (são tantos títulos que não sei nem qual citar – ‘Os Vivos e os Mortos’? ‘Os Imorais’?). Mas não foi assim quando Anjelica estreou, dirigida por John Huston, em ‘Caminhando com o Amor e a Morte’, em 1969. O filme se situa numa fase que os críticos não consideram muito feliz de Huston, entre ‘Os Pecados de Todos Nós’ (Reflections in a Golden Eye) e ‘Fat City – Cidade das Ilusões’. Já escrevi aqui que acho que a psicanálise, descoberta (ou aprofundada?) pelo diretor quando fez sua cinebiografia de Freud, ‘Além da Alma’, em 1962, levou-o a reformular seu cinema. ‘Os Pecados’ pertence a esta nova fase psicanalítica de Huston – e eu sou louco pelo filme e pela alta voltagem dramática e erótica da dupla Brando/Taylor -, mas foi seguido por filmes considerados menores – ‘O Irresistível Bandoleiro’, ‘Caminhando com o Amor e a Morte’ e ‘Carta ao Kremlin’ –, antes que ‘Fat City’ fizesse sensação em Cannes, em 1972. ‘Caminhando’ é o auto medieval de Huston, que conta a história de casal jovem que vive romance proibido na época das Cruzadas. Anjelica, filha do diretor, faz a protagonista feminina, e Assaf Dayan, filho do general israelense Moshe Dayan, considerado herói na recente (na época) ‘Guerra dos Seis Dias’, é o protagonista masculino. O filme foi recebido a pedradas – seria um atestado da decadência de Huston etc –, mas as piores críticas foram reservadas aos atores. Ridícula, inexpressiva, e por aí afora. Assim foi recebida Anjelica em sua estréia. Se fosse mais frágil, psicologicamente, acho que poderia ter-se matado. Mal comparando, Anjelica foi considerada tão sofrível quanto o seria mais tarde Sofia Coppola, escalada por seu pai, Francis Ford – mais nepotismo? – em ‘O Poderoso Chefão 3’. Por meio das filhas, imagino que os coleguinhas estivessem querendo atingir os pais. Sofia desistiu de ser atriz, virou roteirista e diretora e hoje já tem uma obra da qual se pode gostar ou não – eu gosto –, mas é bastante coerente, do ponto de vista autoral. Anjelica foi outra que, intimidada, poderia ter desistido da carreira. Já pensaram que perda a nossa, se ela tivesse feito isso? Entre 1969 e 1985, passaram-se 16 anos, durante os quais Anjelica amadureceu como mulher e atriz. Quando ela ressurge em ‘A Honra do Poderoso Prizzi’, estrelado por Jack Nicholson, com quem vivia, é outra pessoa e o próprio filme, uma deliciosa comédia de humor negro, é um belo Huston, embora, pessoalmente, eu prefira ‘Roy Bean, o Homem da Lei’, ‘O Homem Que Queria Ser Rei’, ‘A Sombra do Vulcão’ e ‘Os Vivos e os Mortos’ na derradeira fase do diretor. Lembrei-me de contar essa história. Não sei exatamente o que estou querendo tirar daqui. Mas a idéia da validade do esforço e da inevitabilidade do fracasso sempre rondaram a obra hustoniana. Se tivesse se encerrado no seu ‘fracasso’, Anjelica Huston teria nos privado de seu grande talento futuro. Não tenho aqui a biografia de Huston, ‘Um Livro Aberto’, para conferir se ele fala alguma coisa sobre isso, sobre a estréia da filha e a atriz em que se transformou. Vou pesquisar quando chegar em casa, à noite.