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Luiz Carlos Merten

23 Junho 2007 | 09h50

Já falei para vocês da filhote de buldogue de minha filha. Chama-se Angel. No começo da semana, Angel teve pneumonia e precisou ser internada. Meus colegas acompanhara todo o processo de recuperação – Angel já voltou para casa. Fez tudo a que tinha direito. Raio X, inalação, transfusão, antibiótico. Regina Cavalcanti, para me atormentar, pergunta todo dia por minha neta. Como está Angel Merten? Conto desta Angel para chega a uma outra Angel. Assisti em Berlim, em fevereiro, ao novo filme de François Ozon. Sei que decepcionei o Jean-Thomas, da Imovision, porque ele me havia agendado uma entrevista com o diretor, com a qual concordara, mas ela coincidia com outro filme no qual, no momento, estava interessado, e eu não fui. Não gostei muito de Angel, achei excessivo, mas agora me pego pensando no filme e não apenas por causa do título, que é – justamente – Angel. Jean-Thomas deve lançá-lo no Festival do Rio, ou na Mostra de São Paulo. (Ele me contou na noite da pré-estréia de Meteoro, na Reserva Cultural, que está seguindo minha indicação e comprando também Meu Irmão É Filho Único, do qual gostei tanto em Cannes. Bravo!) Mas, enfim, deixem-me falar de Angel, o filme. O tema me veio porque havia comprado umas revistas francesas de cinema, no aeroporto, na volta de Paris, após Cannes. Cheguei em casa, fui colocando coisas em cima e só agora de manhã, desfazendo a pilha, reencontrei a Positif de março, com Angel na capa. É o primeiro filme inglês de Ozon, que se baseou num romance de Elizabeth Taylor, homônima da estrela, publicado em 1957 – só para constar, no mesmo ano em que Douglas Sirk fez Palavras ao Vento, um clássico do melodrama. Angel é um filme de época. Conta a história dessa garota pobre, que vive num mundo de fantasia. Angel quer ser Angélica, a dona do castelo situado nas proximidades. Dotada de uma imaginação prodigiosa, ela vira escritora de literatura cor-de-rosa, faz grande sucesso e realiza o sonho de virar senhora do castelo. Chegando ao topo, ela despenca ladeira abaixo. Rica, poderosa e caprichosa, passa a infernizar a vida de todo mundo, primeiro a da mãe, uma vendeira a quem quer transformar em dama da corte, e depois do marido aristocrata, que, literalmente, comprou. Ele quer ser pintor. Faz pinturas que ninguém entende (um pré-cubismo), nem Angel. Desesperado, o marido torna-se amante de Angélica, a antiga castelã. Vai para a guerra (a 1ª), perde a perna em combate. Tudo é demais, demais, parece dramalhão, mas o melodrama de Ozon é desmistificador, subversivo do próprio gênero, ilumina a obra do diretor (a relação escritora/editor de A Piscina) e deixa claro que, para o jovem autor, não existe outro tema senão os amores infelizes – il n’ y a pas amours heureux, como cantava Danielle Darrieux no fim de Oito Mulheres. Romola Garai é a atriz que faz Angel. Michael Fassbender é o marido, Esmé, e do elenco participam Charlotte Rampling, Sam Neill e Lucy Russell, como a devota (e lésbica) auxiliar da protagonista. Não sei se vocês já haviam ouvido falar em Angel. Talvez eu mesmo tenha comentado alguma coisa em Berlim. Estou curioso para rever o filme – Positif ama tanto! Jean-Thomas queria ver se trazia Ozon para o Brasil. Fiquei louco para entrevistar o cara, porque ele diz coisas muito interessantes sobre Sirk, Cukor, a relação cor/cenografia e o melodrama. Espero não chegar, no fim, à descoberta de que minha primeira impressão era certa, a de todo o refinamento de Angel é esteticismo estéril. Ah, sim, para concluir. No geral, gosto de Ozon. Gostei especialmente de Le Temps qui Reste – seu segundo filme da trilogia da morte, iniciada com Sob a Areia e ainda sem previsão de conclusão, já que o próprio Ozon se confessa sem coragem de encar o tema, a morte de uma criança. Agora me dei conta. Le Temps Qui Reste é o único filme dele que ainda não estreou no Brasil. Ou será que estreou e eu perdi? Aguardo os comentários.