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Luiz Carlos Merten

20 Junho 2007 | 14h31

Acabo de chegar na redação do Estado, depois de assistir a 13 Homens e Um Novo Segredo. Mentiria se dissesse que o filme é ruim. Aliás, ruim é o outro filme de Steven Soderbergh, O Bom Alemão, que, me informaram, a Warner nem vai lançar nos cinemas brasileiros, despachando diretamente para DVD. Acho até difícil encontrar a classificação para 13 Homens. É inteligente, é divertido – em termos. Por sinal, não sei mais o que o cinema está virando. Não morri de amores por Saneamento Básico, todo mundo já sabe, mas fui cobrado numa dessas cabines a que tenho ido. Alguém me disse – Ah, mas eu me diverti. Eu também. dei algumas risadas, mas é só isso que se espera do cinema, atualmente? Oh, sim, me diverti até no 13 Homens, que tem algumas coisas bem legais. Não sei se o que gosto é o que vocês vão gostar no filme. Nos anos 60, não vou dizer que Godard tenha inventado a montagem sincopada, mas ele faz um belo uso dela em filmes como Uma Mulher É Uma Mulher. Soderbergh usa o diálogo sincopado. Existem duas ou três cenas muito legais com George Clooney e Brad Pitt. São aquelas em que eles estão falando sobre afetos, mulheres. Na verdade, não falam, porque atropelam as palavras. São coisas do tipo – Mas você sabia que ela…? Exato. Mas pode ser que…? Sem dúvida. São frases que não dizem nada e deixam as coisas subentendidas. Tudo, nada. Gosto desse tipo de coisa. O problema é que essa economia não enxuga a narrativa. O filme tem mais de duas horas. É muito longo para um filme descartável. Tem muita preparação para o golpe, muito detalhe, e mais ou menos uns 30 epílogos. O filme termina e aí tem mais um final e mais um e mais outro e…. Já era assim no 1 e no 2, isso eu me lembro, mas por mais que tente recordar a trama do 2 acho que apaguei. Tinha as cenas em Roma, um sótão em Amsterdam ou qualquer outro lugar da Holanda, mas qual era mesmo o golpe? No 13 Homens, que é o número 3 da série – desta vez é 3 mesmo, não 2, como me equivoquei no Quarteto –, o ponto de partida é interessante. Al Pacino, com sua carga de poderoso chefão, entra em cena feito um trator, passando por cima de Elliott Gould, que tem um infarto. George, Brad e os amigos resolvem vingá-lo aplicando um grande golpe em Al Corleone, que construiu o maior cassino de Las Vegas enganando o outro. Quanto maior a subida, maior a queda, já diz o Senhor. Existe aí uma história de afeto, mas é de amizade. As mulheres praticamente sumiram, como as palavras nos diálogos de George e Brad. Tem só a Ellen Barkin, mas, vocês vão ver, ela é uma vaca que merece o tratamento que lhe é dispensado. A única mulher boa na trama é Oprah Winfrey, que arranca um suspiro, senão exatamente uma lágrima, de Brad. Existem referências ao velho Sinatra, que estrelou o filme antigo, de Lewis Milestone. Outras referências a crianças carentes e adoções que remetem a Brad e sua Jolie Angelina. Ou seja, é um filme inteligente, mas sua inteligência é, como direi?, artificial. Aliás, são as melhores piadas do filme – Brad participa de um roubo, no começo, e toca o celular. O especialista em novas tecnologias diz que George e Brad são jogadores analógicos querendo triunfar num mundo digital. Bem, eles vencem – qual seria a utilidade do filme, se não…? Mas, qual é, como se diz, a mensagem? Precisamos usar o futuro (digital) para recuperar velhos valores (analógicos) que se perderam com a desumanização no bojo deste mundo globalizado? Se é isso, até que estou dentro, mas, sinceramente, não é para implicar – continuação por continuação, gostei mais de Quarteto 2.