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Luiz Carlos Merten

01 Outubro 2010 | 10h22

RIO – Tenho visto muitos filmes sobre relacionamentos, aqui no Rio. ‘Mine Vaganti’, de Ferzan Ozpetek; ‘Malu de Bicicleta’, de Flávio Tambellini; ‘Como Esquecer’, de Malu de Martino. Fui ver o filme do Ozpetek no último dia, na última sessão. O boca-a-boca  já devia ter-se espalhado e a plateia estava lotada. Ozpetek é ‘do babado’, como diz minha amiga Leila Reis. Vive contando histórias de homossexuais, de bissexuais. O centro de ‘Mine Vaganti’ é esse filho pródigo que volta para casa para anunciar ao pai que é gay. A família possui uma fábrica de massas, que o pai e o filho mais velho administram. O protagonista conta ao irmão o que veio fazer, o irmão se antecipa e, no jantar, corre na frente para dizer que (também) é gay. O velho surta, tem um ataque do coração e o filme vira (em 2010!) uma paródia do comportamento do pai machista de Marcello Mastroianni em ‘O Belo Antônio’, de Mauro Bolognini. ‘Mine Vaganti’ trata de homossexualismo, mas não é sobre isso. É sobre amores difíceis, impossíveis. Num flash-back, logo de cara, acompanhamos a história da avó, que amava o irmão do marido. Vestida de noiva. ela corre atrás deste último, para se matar, mas ele a devolve ao marido. Ficam a vida toda a três, sem conclusão do affair. A filha do sócio na fábrica também se apaixona por Tommaso, o protagonista, mesmo sabendo que é um amor impossível. O filme é uma tragicomédia à italiana. Chegam os amigos de Tommaso, de Roma. A gaiola das loucas. Nunca vi, no Festival do Rio, uma plateia tão ruidosa, tão participante. Tem um momento hilário, o cinema quase veio abaixo – as mãos que batem em palma, na cena da ‘mosca’, esperem para ver na Mostra, porque imagino que o filme de Ozpetek vá passar; Leon Cakogg gosta dele. No final, ‘Mine Vaganti’ foi muito aplaudido – a forma como Ozpetek, apesar de tudo, dá ‘gracias a la vida’ é muito bonita. ‘Malu’ traz Marcelo Serrado na pele de um garanhão que troca todas as mulheres do mundo pela garota da bicicleta. Mas seu sentimento de posse, o ciúme que vai ficando doentio, estraga tudo. É um filme bem feito, bem interpretado. A atriz que faz Malu é ótima. Não me lembro o nome, mas ela tinha como única experiência prévia o ‘Tropa 1’, do Padilha, em que fazia a jovem condenada pelo tráfico a morrer queimada no pneu. Que que é isso, Padilha? Uma garota tão talentosa (e bonita). Também havia uma plateia numerosa, e participante, para ver ontem ‘Como Esquecer’ no Odeon BR. O filme de Elisa Tolomelli (produtora) e Malu de Martino (diretora) é sobre Ana Paula Arósio, que curte a fossa de ter sido dispensada pela namorada. Murilo Rosa faz o amigo gay que tenta resgatá-la de tanta dor. O filme é bonito, bem feito, tem uma pesquisa visual (e musical) interessantes (as duas). Murilo está ótimo, num papel entre o Tommaso de ‘Mine Vaganti’ e as loucas que desembarcam em sua casa. Ana Paula nunca esteve mais desglamourizada, sem deixar de ser bela (nem poderia). Ela subiu ao palco do Odeon comme il faut. Cortou os cabelos a la garçonne, usava uma minissaia com as coxas, benza a Deus!, à mostra. Aliás, no capítulo benza a Deus, Murilo arranja um namoradinho que sai do banho nu e dá um susto em Ana Paula, a personagem, que provavelmente nunca viu aquilo – ou tudo aquilo. Estou saindo do sério. O filme é realmente bonito, elaborado, mas eu não consegui ter muita empatia pela personagem de Ana Paula. Ela busca seu orgasmo naquele sofrimento. Quando a vida vem, como diz outra amiga, Roseli Tardelli, ela não a apanha. Hesita, para poder sofrer mais um pouco, sozinha. Honestamente, achei um porre (a personagem). Vou rever. ‘Como Esquecer’ estreia agora, dia 15.