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Cultura » ‘Amistad’ e o Holocausto negro

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Luiz Carlos Merten

14 Março 2010 | 13h24

Cá estou eu de no vo na redação do ‘Estado’. Ontem, não tive tempo de postar. Fui almoçar com a Lúcia e o Érico e emendei duas sessões no ciclo ‘Courtroom Drama’, na Galeria Olido. Fui (re)ver ’12 Homens e Uma Sentença’, de Sidney Lumet, que já havia recvisto em Cannes Classics, quando Jane Fonda foi apresentar a versão restaurada do clássico interpretado por seu pai. Não sou tão fã assim do filme – nem do príoprio diretor Sidney Lumet, embora  goste de coisas dele -, mas vi em Paris o ’12’, a versão de Nikhita Miklhalkov, e quando cheguei ao Olido para conferir o que passava, resolvi (re)ver e emendar com o ‘Amistad’, do Spielberg. ‘Amistad’ é de 1995 ou 96, logo depois de ‘A Lista de Schindler’, e anterior a ‘O Mundo Perdido’. Lembro-me que, na época, Spíelberg deu uma declaração polêmica, dizendo que seu filme era a pontinha do iceberg para falar do Holocausto negro, que foi a escravidão como base econômica do sistema que forjou a ‘América’. Havia visto, há dias, e até comentei aqui no blog, a cena de ‘Minority Report – A Nova Lei’, em que Tom Cruise encontra a criadora do sistema de prevenção ao crime na sociedade do futuro e ela discute a Justiçsa, expondo as falhas do sistema. A fala tem tudo a ver com ‘Amistad’, principalmente com o discurso de John Quincy  Adams no Supremo, quando ele completa a obra dos legisladores do país (e a de seu pai), fazendo por merecer seu lugar na história. Pensei com meus botões – este Spielberg sempre foi melhor do que cretinos como eu pensavam. Sempre teve a noção da ‘obra’, por mais esquizofrênica que ela pareça, alternando filmes de ‘público’ e outros de ‘autor’, mais sérios. Mas há uma continuidade, se a gente for pensar, é verdade que chegando à trilogia ‘O Terminal’, ‘Guerra dos Mundos’ e ‘Munique’, que vale, em bloco, a obra inteira.  Poderia ficar aqui durante horas falando de ‘Amistad’ e da força do filme,. mas quero falar justamente do discurso de Anthony Hopkins. Aliás, o elenco do filme é uma coisa de louco – Hopkins, Matthew McConaughey, Morgan Freeman, Nigel Hawhthorne, Djimon Hounsou, Pete Postlwethwaite, Jeremy Northam,  Stellan Skarsgaard, Chiwetel Ejiofor, cada um melhor que o outro… A cena de Hopkins no Supremo, quandoJohn Adams invoca os ‘ancestrais’ e toma partido contra a escravidão, dizendo que, se a guerra civil tiver de vir, que venha porque será a batalha final da revolução americana, aquilo é excepcional. Respeito cada vez mais Spielberg e suas idiossincrasias, e uma delas é o excesso de música. Estava achando a trilha de John Williams maravilhosa, pela multiplicidade de diálogos com as mais diversas vertentes, mas justamente a cena do tribunal me parecia excessiva, até para o padrão de Spielberg. Felizmente, ele atendeu a minha súplica e, na hora H, quando Hopkins diz a frase decisiva, a música pára. Aleluia, a música pára e não é só a música, é o mundo todo, como se fosse para dar tempo à gente de respirar, ao ver a história em processo, perante nossos olhos. Achei a fotografia um show – preto e branco em cores – e as cenas do navio negreiro, com a crise de claustrofobia  do negro emancipado (Morgan Freeman) que visita aquele horror do qual não tinha  noção, são extraordinárias. São reminiscências do campo de concentração de ‘A Lista de Schindler’ – o Holocausto negro – e talvez Spielberg necessitasse de sua produção de ‘ação’ para chegar à excelência desses fragmentos de cinema, que são de um realismo estarrecedor e, ao mesmo tempo, têm o toque da graça, alguma coisa fantástica, até surreal. Vocês devem  estar achando que exagero. Pode até ser, mas gostaria de voltar hoje às 5 ao Olido para ver ‘Testemunha de Acusação’. Não sei se vou conseguir.  É o último dia da peça ‘ Corte Seco’, da Cia. Vértice, e eu quero conferir o trabalho da diretora Christiane Jathay, no Sesc Consolação, às 7 da noite. Mas sou capaz de arriscar, (re)vendo Billy Wilder antes.