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Amigos que me faltam

Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2008 | 16h59

Não comentei nada sobre a entrada da Ivonete Pinto no blog, no outro dia, para comentar nossos aniversários e lembrar os de amigos de Porto Alegre, também virginianos e cinéfilos, que morreram nos últimos anos – Jefferson Barros, Luiz César Cozzatti. Tuio Becker era leonino, teria festejado seu aniversário em agosto, no dia 8. Nessas datas, por menos nostálgico que a gente seja, tende sempre a se voltar para o próprio passado. Para completar, entrevistei ontem o Hugo Carvana, sobre a próxima estréia – dia 19 – de ‘A Casa da Mãe Joana’ e ele, que é um cara muito humorado e ligado à ‘patota’, criou aquele personagem do malandro que resiste num mundo em transformação. E ainda estou lendo – terminando – mais uma Agatha Christie, ‘O Caso do Hotel Bertram’, na Coleção BestBolso, em que a velha Miss Marple volta ao hotel em que se hospedou quando jovem para descobrir que aquele lugar que lhe parece exatamente igual na verdade é mantido assim, como um recanto da tradição, para servir de fachada a uma organização criminosa. Muito interessante. Estou viajando, portanto, entre a nostalgia e a sua desmistificação, o que é ótimo porque minha festa de aniversário, logo mais, vai ter até ala-show da Unidos do Peruche, com ritmistas, passistas e mulatas. Espero não ser chamado, por isso, de sexista nem politicamente incorreto, só porque gosto de festa, de carnaval, mas a verdade é que o comentário da Ivonete me bateu. Sou um sobrevivente. Tanta gente da minha geração já morreu. E existem todos esses amigos que me faltam – Sérgio Moita, Romeu Grimaldi, o Tuio, o Cozzatti, com quem tinha sempre agradáveis conversas sobre filmes (mesmo nas poucas vezes em que nos víamos). Minha última conversa com Cozzatti – ele era médico e eu, na verdade, estava meio que consultando – versou sobre John Huston, sobre a validade do esforço e a inevitabilidade do fracasso ao qual está destinado o herói hustoniano, e isso virou uma discussão sobre a relatividade do sucesso e do fracasso. É tão fácil ser uma coisa e outra, mais até do que uyma coisa ou outra. Estou ficando filosófico, chega. Mas é sempre legal falar sobre John Huston, Pertenço a uma geração que o negava como autor, porque ele não possuiria um ‘estilo’, como Alfred Hitchcock ou John Ford. Li certa vez uma autocrítica de Huston em que ele assumia que não tinha um estilo porque sempre procurou se adaptar às muitas histórias que queria contar. Ele queria servir às histórias, mais do que servir-se delas. Huston, como Buñuel, foi uma descoberta tardia minha. Mesmo hoje, não sou louco por ‘Relíquia Macabra’, sua versão de ‘O Falcão Maltês’. Prefiro o Huston pós-freudiano e sartriano, aquele que começa com a cinebiografia ‘Freud, Além da Alma’. O ‘meu’ Huston é o de ‘Os Pecados de Todos Nós’, ‘Roy Bean – O Homem da Lei’, ‘O Homem Que Queria Ser Rei’ e ‘Os Vivos e os Mortos’, todos grandes filmes, de um grande autor, cujo olhar – sobre temas e personagens – hoje me parece mais rico do que o desses autores de carteirinha, que, à força de tanto se repetir, viraram gêneros deles mesmos, e vocês sabem a quem estou me referindo.