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‘Amigos do Peito’

Luiz Carlos Merten

08 Abril 2009 | 13h10

Estava antecipando os filmes na TV de sexta-feira, por conta da viagem a Porto Alegre. Serão exibidos vários épicos bíblicos, a maioria telefilmes. Um deles me fez viajar. “Jesus Menino’ vai passar às 8 da noite no Rede Brasil. Pode até ser porcaria, Gesù bambino, mas tem uma grande atriz, a grega Irene Papas. E o que – ou quem – me fez viajar foi o diretor. Em 1955, Franco Rossi fez um filme intitulado ‘Amici per la Pelle’, que no Brasil se chamou ‘Amigos do Peito’. Não sei exatamente quando o vi, mas era muito garoto e o cinema era o Colombo, na Av. Cristóvão Colombo, em Porto, onde passava a produção da Metro. Nada mais anti-Metro do que um filme italiano, pequeno, em preto e branco. ‘Amigos do Peito’ conta a história da amizade de dois meninos. Aproximação/identificação/separação. Como observa Jean Tulard no ‘Dicionário de Cinema’, a sensibilidade é tão grande, tão exacerbada, que o filme roça a pieguice. No meu imaginário, ‘Amigos do Peito’ de alguma forma ficou ligado a ‘Dois Destinos’ (Cronaca Familiare), outro filme italiano ‘sensível’, de um autor mais reconhecido (Valerio Zurlini), sobre a conflitiva relação de dois irmãos e, curiosamente, distribuído pela Metro, no Brasil. Não tenho uma lembrança muito nítida de ‘Amigos do Peito’. Às vezes, quando quero me lembrar do filme, o que me vem são as imagens de ‘Dois Destinos’. Rossi descobre a força das ligações afetivas, Zurlini mostra que os laços de sangue são mais fortes que qualquer diferença. Descobri, muito mais tarde, que ‘Amici per la Pelle’ era um filme de culto nos EUA. Foi lendo ‘Kiss Kiss Bang Bang’, acho que meu primeiro livro sobre cinema, de Pauline Kael. Ela escreve um texto relativamente curto sobre o filme, mas o põe nas nuvens e faz uma observação interessante – ‘Amigos do Peito’ era idolatrado por plateias norte-americanas de gays e ela nunca entendeu isso, porque o vínculo entre os garotos não é homossexual. Franco Rossi retornou a esta vertente com ‘A Morte de Um Amigo’, em 1960, mas o mistério se dissipara. ‘Odissea Nuda’, no ano seguinte, dispõe de excelente reputação, mas nunca vi nem sei do que se trata, embora presuma que seja Homero. O diretor virou especialista em filmes de esquetes – ‘Alta Infidelidade’, ‘Contra-senso’, ‘Três Noites de Amor’, ‘As Bonecas’, ‘Os Complexos’ etc. Em 1965, ele filmou no Rio, com Claudia Cardinale, ‘Uma Rosa com Amor’. Depois, foi para a TV. Seu único telefilme que conheço havia sido lançado em vídeo no Brasil – ‘Quo Vadis?’, adaptado do romance de Henryk Sienkiewicz, com Klaus Maria Brandauer, na fase pós-‘Mephisto’, como Nero. Não pesquisei para saber se Rossi está vivo. Em caso afirmativo, será um matusalém, quase centenário. Como seria (re)ver hoje ‘Amigos do Peito’? Infelizmente, não tenho resposta para a pergunta que eu mesmo faço.

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