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Luiz Carlos Merten

02 Fevereiro 2009 | 20h34

PARIS – Não me lembro quem distribuía ‘A Isca’ no Brasil, acho que a Look. O ano era 1995, era minha primeira vez no Festival de Berlim – desde então, tenho ido regularmente à Berlinale. Na quarta, deixo Paris e embarco para mais um festival. Quero voltar à ‘Isca’, a ‘L’Appât’. Naquele tempo, o festival anunciava antes a premiação e eu fui para a minha entrevista com Bertrand Tavernier logo depois de saber que ele havia recebido o Urso de Ouro. Fui eu a informá-lo. Ele achou que eu ‘rigolava’. Tavernier estará de novo na disputa pelo Urso de Ouro com seu novo filme, um thriller norte-americano (‘In the Electric Mist’) filmado na Louisiana e interpretado por Tommy Lee Jones. Tavernier pode ser irregular, mas tem filmes que me encantam, ‘Por Volta da Meia-Noite’, ‘Laissez-Passer’ e aquele do velho pintor impressionista, ‘Domingo-alguma coisa’. Tenho pensado bastante nele. Fui ver a versão restaurada de ‘Occupe-toi d’Amélie’ e havia um texto de Tavernier pregado na porta do cine Champô, elogiando a adaptação que Claude Autant-Lara fez da peça de Jacques Feydeau. Lara era um daqueles diretores de ‘qualidade’ contra os quais François Truffaut investia com verdadeira fúria. Alguns não ligavam, mas Lara parece ter sido um dos que mais sofreram com os ataques. É curioso, mas sem Lara, e ‘Amélie’, Truffaut não teria escolhido Jean Dessaily para ser seu alter-ego em ‘Um Só Pecado’ (La Peau Douce), e essa descoberta realmente terminou por me perturbar. Para os jeunes turcs, não bastava não gostar. Eles queriam destruir. Vou resistir a fazer uma psicanálise elementar, Não resisto, porém, a observar que há hoje um reconhecimento de que nosso querido François terminou aburguesando-se como os realizadores que combatia. Sei que tem gente que ama ‘La Femme à Coté’. OK, respeito, agora ‘Vivement Dimanche’ não dá. É cinéma de papá, mediocridade demais para o meu gosto. Tavernier, ao longo dos anos, tem se mantido à margem desse tipo de radicalismo, tão comum em todas as cinematografias. Sua ‘História do Cinema Norte-Americano’ é um monumento que nenhum pesquisador pode se dar ao luxo de ignorar. Tavernier foi attaché de presse de companhias dos EUA em Paris. No exercício da função, conheceu grandes diretores de Hollywood em visita à França. De seus encontros com eles, tirou uma série de entrevistas e perfis que publicou, com o título de ‘Amis Américains’, na coleção ‘Actes du Sud’, editada pelo Institut Lumière, de Lyon, do qual foi diretor. Comprei uma edição do livro, anos atrás. Uma nova edição de ‘Amis Américains’ está agora nas livrarias francesas e a Companhia das Letras ou a Cossac Naify fariam muito bem comprando os direitos para o Brasil. Gostaria muito de comprar a nova edição, mas acho que não vou conseguir. Nem é pelo preço, com o qual poderia arcar, embora cada euro tenha sempre de ser multiplicado por 3 e pouco. O livro antigo já era volumoso, embora sem fotos. O novo, além de muito maior e encadernado, tem quase mil páginas (980) e mais de 500 ilustrações, uma loucura. O que me assustou foi o peso. Já comprei revistas e livros, que pesam uma barbaridade. Um volume de amigos americanos – a foto da capa é de John Huston – me faria pagar sabe quanto de excesso de bagagem. Mas cada vez que entro na Fnac e na Gilbert Jeune eu não resisto e namoro o livro. Quem sabe esse post não ajuda a acordar nossos editores? Espero, só para concluir, que o Tavernier acorde para a necessidade de atualizar sua ‘História do Cinema Norte-Americano’, que teve versões dos anos 50 e 70. Defasado, nem vale a pena ficar insistindo que essas editoras também já deveriam ter trazido o livro clássico de Tavernier e Corsodon, mas não, vocês sabem, estavam ocupadas publicando… É melhor calar.