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Luiz Carlos Merten

10 Novembro 2006 | 10h01

Não botava muita fé em Amigas com Dinheiro, mas confesso que achei que devia ver o filme depois que o Zanin (meu colega Luiz Zanin Oricchio, leiam o blog dele) me disse que Miguel Barbieri, na Vejinha, havia elogiado muito o trabalho de Nicole Holofcener, acho que até considerando melhor que o Volver, do Almodóvar. Não li o que o Miguel escreveu, mas estou propenso a lhe dar razão (de que Amigas é bom, não que é melhor que Volver). Achei o filme da Nicole Holofcener (que sobrenome, hein?) muito interessante. Tem algo de Sex and the City, de Desperate Housewives. É um filme comercial, em princípio para ser visto e descartado, mas eu confesso que algumas coisas ficaram comigo. Acho que essas outras ‘mulheres à beira de um ataque de nervos’ falam de tudo, entre elas e com os maridos e companheiros, compondo cenas bem divertidas da vida americana. O sexo é importante, mas o dinheiro talvez seja mais importante ainda. É raro um filme americano que dê tanta importância ao trabalho, seja de desenhista de modas ou faxineira, e ao dinheiro, quem tem, quem não tem, que uso faz dele. Achei alguns momentos bem corajosos. A cena em que o casal de negros passa à frente da Frances McDormand na fila e ela vai reclamar por seus direitos é exemplar. A mulher é neurótica, mal comida e tudo o mais, sua reação é exagerada, mas ela está no seu direito. Só que o gerente olha a dupla, são afro-americanos e ele prefere expulsar a Frances da loja, com medo de ser acusado de ser politicamente incorreto. A cena continua de um jeito que você percebe porque a diretora, no dossiê de imprensa de Amigas, diz que gosta tanto das personagens loucas de Woody Allen e Federico Fellini. Mas o que eu assumo que achei muito engraçado em Amigas foi a Jennifer Aniston. Jennifer já era uma celebridade na TV, mas a vida e a carreira dela se dividem em antes e depois de levar o fora de Brad Pitt. Jennifer virou capa de revistas de escândalos e fofocas ao redor do mundo, chorando para que ele voltasse. Ela incorporou, ou a diretora incorpora, a persona à personagem. No filme, Jennifer se decepciona tanto por ser abandonada pelo amante casado que perde a estima. Vai trabalhar como faxineira, lavando banheiros (disgusting!, como diz Joan Cusack) e se rebaixa ligando para ele, só para ouvir a voz do cara. Numa cena, a mulher, do outro lado da linha, lhe aplica um esculacho. Pelo tom, é o que Lara Croft, perdão, Angelina Jolie, diria. Quer dizer, além de Sex and the City e Desesperate Housewives, Amigas também tem algo de Casseta e Planeta. Jennifer representa Maria Paula representando Jennifer Aniston, mas isso a diretora Nicole Holofcener, provavelmente, não sabe.

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