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Luiz Carlos Merten

08 Janeiro 2011 | 10h15

Arrastei meu amigo Dib Carneiro Neto para ver ontem ‘Além da Vida’. Continuei gostando muito do novo Clint, que me emociona demais. Mas senti que teríamos problemas. Sentei-me na ponta (no Arteplex do Shopping Bourbon) e fiquei meio resguardado, mas do lado do Dib sentou-se um casal que foi preparado para um piquenique. Quando o cara abriu o saco de papel e começou a comer batatinhas crocantes, sei lá, pensei comigo que não era exatamente o filme para consumir com pipoca e refrigerante, mas vai fazer o quê? Tem gente cujo programa no cinema inclui passar pelo balcão das guloseimas. Sem isso, o filme nunca estará completo. Viajei nas imagens e nos sons e, de repente, estava no meu planeta, a anos luz daquela gente toda. Na saída, o Dib, que gostou, mas sofreu todas essas interferências, comentou o que as pessoas diziam (eu nem notei). Muitos reclamavam de que não foram ‘avisados’. Como assim? Foram ver o filme por engano, atraídos pelo Clint durão ou pelo Matt Damon da série ‘Bourne’, é isso. Era umk público que queria respostas e encontrou interrogações. ‘Além da Vida’ tem muitas coisas maravilhosas, sublimes. Nenhuma me toca mais do que aquela em que Damon, enfim, cedendo à dor que percebe no garoto, resolve fazer o contato. Aquilo é de uma sutileza e tem, para mim, da forma como a vejo, uma mentira piedosa que retira o filme do sobrenatural e o coloca exclusivamente no plano humano. Não vou entrar em detalhe, mas prestem atenção na cena. Desfrutem-na. É como se Clint tivesse atravessado todos aqueles personagens endemoniados (‘Bird’, ‘Coração de Caçador’, ‘O Jardim do Bem e do Mal’ etc) para chegar a essa pacificação. O garoto, agradecido, retribui e provoca o encontro que leva a um simples aperto de mão, mas aquele toque é, desde logo, uma das emoções que espero carregar comigo.