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Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2011 | 01h33

RIO – Assisti a ‘Novela das 8’, corri ao Amarelinho para jantar e vim para o hotel, para postar alguma coisa antes de dormir. Sorry, Lia (Viossotto). Minha amiga tinha me convidado para a festa do filme, num daqueles puteiros da Caio Jr., o que, em princípio, seria muito atraente, mas tenho de levantar cedo para fazer 1001 matérias e ainda entrevistar o Willem Dafoe, mas, para isso, e a entrevista é de manhã, ainda tenho de ver o filme da mulher dele, um dos três que o trouxeram ao Brasil. Tenho feito muitas entrevistas legais – Marisa Paredes, Emmanuele Crealese, Edgar Ramirez, Jean-Paul Gaultier etc. Fiz a medização de um dos debates do RioMarket, sobre os ‘outros’ gêneros de sucesso no cinema brasileiro, que não a comédia – ‘Nosso Lar’, ‘Bruna Surfistinha’ e ‘Assalto ao Banco Central’, e também fui mediador nos debates sobre filmes que integram a Première Brasil. ‘Laiá, Laiá’, ‘Girimunho’, hoje à tarde (já é terça) ‘A Era dos Campeões’ e as mediações ainda vão continuar. Confesso que ainda não tive nenhum ‘coup de coeur’, como dizem os franceses, na Première de 2011. ‘Histórias Que Só Existem Quando Contadas’ e ‘Girimunho’ têm alguns pontos em comum – comunidades interioranas, conflito entre tradição e modernidade, personagens idosas etc -, mas o segundo me interessou mais, sem ter provocado nenhuma paixão. Acho que foi o lado ‘roseano’, se bem que até brinquei no debate – quando a protagonista conta aquela história do peixe dourado, no desfecho, se a dupla de diretores (Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina) tivesse visualizado o relato dela, o filme poderia ser ‘Tio Boonmee’, de Apichatpong Weerasethakul. Nos debates, pude perceber o desprezo de algumas pessoas pelo ‘mercado’, essa entidade que tantos gostam de demonizar, mas as mesmas pessoas exaltavam um tipo de cinema que interessa aos festivais europeus. Era o que nos faltava, começar a fazer filmes de olho nos festivais. Coisa mais colonizada, subdesenvolvida, como se precisássemos do aval de Veneza, Berlim ou do Oscar para dar legitimidade ao cinema nacional. Cada vez mais torço por José Eduartdop Belmonte, na expectativa de que a terceira via que ele defende, entre o blockbuster e o filme miúra, produza bons resultados. Quero dizer que amei o filme de David Cronenberg, ‘A Dangerous Therapy’. Assistimos aqui ao Crealese e ao Cronenberg, ambos exibidos e o primeiro premiado em Veneza, mas o grande vencedor do Lido, neste ano, está sendo reservado por Jean Thomas Bernardini, da Imovision, para a Mostra de São Paulo, que vagora está cobrando exclusividade. O público pode sair perdendo, porque deixa de ver coisas importantes, mas se os filmes passassem lá e cá, a Mostra, apesar da sua história de resistência, poderia virar um evento de segunda mão. Não sei exatamente quando entra o Cronenberg, mas gostaria de explicar, e não vai ser agora, os motivos pelos quais o filme mexeu tanto comigo. Tem a ver com paternidade. A relação de Freud com Jung pressupunha que o primeiro fosse uma figura paterna – os três filmes de Cronenberg com Viggo Mortensen, ‘Marcas da Violência’, Os Senhores do Crime’ e agora ‘Uma Terapia Perigosa’ (o filme vai se chamar assim?), tratam de pais e filhos. Muito interessante. Gostei de um filme israelense que me foi recomendado pelo Salomão, meu amigo que realiza o festival do cinema brasileiro de Israel, ‘O Policial’. Quanto a ‘Novela das 8’, que acabo de ver, o filme passa-se no fim dos anos 1970, quando o Brasil vivia a febre de ‘Dancing’ Days’, a novela de Gilberto Braga, e das discotecas. Duas mulheres fogem da repressão durante o regime militar, uma delas é louca pela novela e o diretor Odilon Rocha filtra seu relato pelos códigos da televisão – como há quase 50 anos Cacá Diegues filmou o Brasil de ‘Os Herdeiros’ pelo filtro do ‘Repórter Esso’, da velha Rádio Nacional. Atenção – não estou nivelando os dois filmes, mas tentando entender o que o diretor quis fazer. Não creio que ‘Novela das 8’ seja um bom filme – ainda estou ‘elaborando’ -, mas com certeza não achei o horror que alguns coleguinhas exorcizavam no desfecho. E, podem me bater, mas gostei da Cláudia Ohana. Há tempos que o cinema brasileiro não lhe oferecia um bom papel. Vi ‘Novela das 8’ sem desgrudar o olho dela. É tarde, preciso dormir. Tomara que amanhã, entre tantas entrevistas, mediações e textos para o jornal, tenha tempo de atualizar um diário do Festival do Rio. Vou tentar.