Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Amargo Pirandello

Cultura

Luiz Carlos Merten

16 Junho 2008 | 15h24

Fui ver ontem, depois de ‘1958’, a peça ‘Amargo Siciliano’, compilação de três textos – duas peças e um conto – de Pirandello, dirigida pelo Eduardo Tolentino, do Tapa, em parceria com Sandra Corveloni. Sim, a atriz vencedora do recente Festival de Cannes, por seu papel em ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas. Sandra co-dirige, não interpreta. Achei o primeiro texto, ‘Os Limões da Sicília’, uma obra-prima (e a montagem uma coisa maravilhosa), mas, embora entendendo o conceito que fez Tolentino usar ‘Andorinho e Andorinha’ como intermezzo para ‘O Dever de Médico’, não fiquei muito seguro de que aquele encadeamento tenha funcionado. Vira um anticlimax, que ele pode até ter buscado, mas a montagem termina num suspiro, desanimada. Confesso que me encanta o universo de Pirandello, pelo menos o que vi montado (ou no cinema). A história do primo que ajudou a prima a se converter numa grande cantora e agora ele apatrece na vida dela para cobrar uma promessa de amor feita no passado tem a mesma essência do episódio da mãe que rejeita o filho em ‘Kaos’, dos irmãos Taviani. Lembram-se? O filho é totalmente devotado à mãe, mas ela prefere o que partiu, porque este que fica junto dela foi produto de um estupro e ela vê, olhando para ele, o autor da violência, a quem nunca deixou de odiar. O olhar de Margarida Lozano, a atriz que faz a mãe, é maravilhoso. É cortante, carrega uma censura, coisa de grande atriz. Amo esta coisa do Pirandello, a possibilidade de uma pessoa ser várias, a marginalização do mundo rural, identificado com o primitivo, e o contraste entre passado e presente. Gosto muito, também, de ‘Matias Pascal’ de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni, lançado em DVD pela Versátil, mas nada supera o impacto que teve sobre mim, em ‘Kaos’, o episódio do lobisomem, ‘Mal di Luna’. Aquilo é de doer, de tão lindo e triste. Mesmo não tendo gostado 100% de ‘Amargo Siciliano’, acho que vocês deveriam ver. A cena em que os limões da Sicília caem ao solo e a cantora tenta pegar um deles, sendo impedida pelo primo, é magnífica. Com o cheiro do limão é todo um tempo recuperado, mas os primos seguiram caminhos diversos, a promessa de amor se perdeu para sempre e o mundo urbano soterrou o rural. Como diz a tia, ela não será enterrada no pequeno cemitério do paese, junto aos seus. Sabe-se lá onde jogarão seus ossos… Lindo-lindo.