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Luiz Carlos Merten

12 Junho 2009 | 11h58

Passei agora pela manhã no Centro. Procurava o DVD de ‘Depois do Vendaval’, de John Ford, para dar de presente. Na Flaviu’s, loja naquela galeria da Barão de Itapetininga, 112, o gentil funcionário me brindou com um presente. O representante da Cult havia deixado os lançamentos da marca, em junho, caso eu aparecesse. Olhem que chique – o primeiro Dreyer’, ‘O Presidente’, de 1919; ‘O Gato e o Canário’, de Paul Leni, de 1927; ‘O Mistério da Torre Eiffel’, de Julien Duvivier, também de 1927; e ‘As Duas Faces da Felicidade’, de Agnès Varda, de 1965. Aproveito a oportunidade para comentar um comentário sobre o filme de Varda, quando acrescentei um post sobre ‘Le Bonheur’. Havia falado no filme como um dos mais belos, visualmente, a que já assisti e também sobre a aspiração do personagem de Jean-Claude Drouot, de viver sua plenitude com duas mulheres, e a impossibilidade da ‘esposa’ – Claire, mulher do ator na vida – de aceitar o fato. Claire, pequeno burguesa, prefere se sacrificar pelo que acredita que será a felicidade do companheiro, mas ele nunca mais será pleno como no verão filmado por Varda. Estou com preguiça de procurar o nome, mas uma leitora indignada reagiu ao que, para ela, é pura sem-vergonhice e não ‘pequeno burguesia’. O objetivo do post não era propor a dissolução do casamento, nem creio que fosse o de Varda, ao fazer seu filme. A diretora queria colocar em discussão o próprio conceito de felicidade. O que é ser feliz, o que nos faz sermos felizes? O cinema, não me canso de dizer, é uma janela aberta para a realidade (e para a compreensão do mundo), mas o que vemos refletido na tela não é a vida, mas seu simulacro. Isso dito, ao revelar um desejo masculino – e é curioso que uma mulher o tenha feito – Varda também filmou sua impossibilidade. Mas o que me parece interessante é o seguinte. A leitora indignada com certeza é uma mulher fiel e, não sei por que, mas pelo teor da sua indignação, me pareceu que era ‘crente’. Tudo bem. Varda, que na cabeça da leitora deve ser uma pervertida, foi e ainda é totalmente devotada ao culto de seu ex-marido, Jacques Demy, que morreu em 1990, há quase 20 anos. Uma das coisas mais belas do documerntário ‘Janela da Alma’, de João Jardim e Walter Carvalho, sobre o olhar, é a parte em que Varda fala com verdadeira devoção sobre a fase final de Demy, que morreu de câncer e ela conta como foi acompanhá-lo e como filmou sua finitude, esvaindo-se dia a dia. Morto o marido, Varda continuou fazendo filmes sobre ele, restaurando sua obra etc. Pelo teor de delicadeza da obra de Demy – ‘Lola’, ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’, ‘Pele de Asno’ etc –, tenho colegas jornalistas que juram que ele era gay e como Varda é muito decidida acrescentam que ela é lésbica. Seriam, teriam sido, um par de, como se diz, ‘invertidos’. Não creio e sempre me comove o amor e a fidelidade de Agnès a Jacques, prova de que o amor pode desafiar (e vencer) o tempo sem se tornar necessariamente mórbido. Essa devoção não impediu Varda de discutir a monogamia, a possibilidade ou dificuldade de ser feliz num sistema de valores – o casamento é um contrato social – que pode se tornar excludente e repressivo. Nada de sacanagem, safadeza, putaria (com o perdão da palavra rude). ‘As Duas Faces da Felicidade’, Le Bonheur, é outra coisa. Continuo insistindo que o filme é muito, muito bonito. Um bom programa para o Dia dos Namorados, para se discutir o amor, o desejo, na tentativa de evitar que se tornem camisas de força. Amar é… Completem vocês o pensamento.

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