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Luiz Carlos Merten

24 Junho 2007 | 14h33

Estou desde quinta querendo escrever uma coisa. Naquele dia, fazendo os filmes da TV no Telejornal, do Estado – que iniciou sua nova fase neste domingo –, escrevi sobre Amante Muito Louca, o longa de estréia de Denoy de Oliveira, que passa na TVJB, às 20 horas. Nunca mais revi o filme do Denoy, mas achava legal e adorava a atriz que faz a personagem título. É sobre ela que quero falar, Teresa Rachel (ou Raquel). Grande atriz de teatro, Teresa fez pouca TV e pouco cinema, mas tudo o que fez foi marcante. A rainha Valentina de Que Rei Sou Eu? deve permanecer na cabeça de todo mundo que assistiu à novela e a Amante… Acho que Teresa é genial como a amante que bagunça o mundinho pequeno-burguês do bancário Claudio Corrêa e Castro e, no final, a família finge que não houve nada, jogando toda a sujeira para baixo do tapete. Enfim – Teresa fez escolhas que a gente pode achar que foram equivocadas. Teve problemas por ter apoiado o Collor, contra Lula. Era casada com Ipojuca Pontes, que passou à história como o homem que desmantelou o cinema brasileiro. Tudo isso abalou a imagem dela. Teresa virou saco de pancada. Era chamada de reacionária para baixo. Entrevistei-a em 1995, para o Caderno 2, quando ela estava querendo fazer uma peça sobre Anna Magnani. Até onde sei, a peça não foi feita. Mas Teresa me admitiu o erro. Disse que fora enganada pelo Collor, como 50% dos brasileiros que votaram nele, mas que a haviam transformado em vilã da história, como se ela sozinha fosse responsável por aquele descalabro que foi o governo dele, terminando do jeito que terminou, ainda por cima. O próprio Collor voltou ao Congresso e o presidente Lula disse que era parte do processo democrático. Pensei tudo isso porque admirava muito, admiro ainda, a Teresa Rachel como atriz. E a carreira dela divide-se num antes e depois daquele episódio. Ela foi vítima de alguma lista negra? Não sei. Foi discriminada, prejudicada? Sem dúvida. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas o caso me lembra a lista negra do macarthismo, nos EUA. Tantos artistas foram perseguidos. Tantas vidas e carreiras foram truncadas. Elia Kazan colaborou com o macarthismo e deveria merecer nosso desprezo. Mas ele era o primeiro a dizer que não se orgulhava do que havia feito. Nunca se diminuiu nem deixava que o dominuíssem. Todo mundo esperava que ele se comercializasse, que se mediocrizasse depois da delação, mas Kazan, alimentado pelo ódio tornou-se mais crítico ainda em relação ao sonho americano e fez filmes melhores, que garantem seu lugar no panteão dos grandes do cinema. A realidade é sempre tão complexa. Se a gente é contra a banalização que o maniqueísmo promove nas artes, por que adotá-lo na nossa vida? Não estou querendo dar uma de Polyanna. Só sei que Teresa Rachel tem uma das grandes atuações da história do cinema brasileiro em Amante Muito Louca. Este talento, e esta presença imortalizada pelo cinema, ninguém vai lhe tirar, nunca. Nem Collor, nem Ipojuca, nem os que a chamaram de reacionária.