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Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2009 | 16h09

Antônio Gonçalves Filho tem sido meu ‘informante’ sobre os lançamentos em DVD da Versátil, que eu trato logo de repassar para vocês. Mário Kawai é agora nosso inrformante da Lume. Sensacional! Quer dizer que teremos ‘O Espírito da Colmeia’, de Victor Erice, ‘o Intendente Sansho’, de Kenji Mizoguchi, em janeiro? E ‘O Segundo Rosto’, de John Frankenheimer, em fevereiro? Mal posso esperar. Amo Erice desde que vi Ana Torrent como a garotinha obcecada por este sujeito em que projeta o ‘Frankenstein’ que tanto a impressionou no cinema, assistindo ao clássico de James Whale. O clima poético, um tanto mórbido, o fundo político, com sua metáfora sobre o franquismo, tudo sempre me apaixonou em ‘El Espiritu de la Colmena’, mas tem um filme do Erice de que gosto ainda mais – ‘El Sol nel Membrillo’. Tudo ou nada. Durante duas horas um pintor – Antonio Moreno – tenta captar as variações da luz do sol sobre os frutos dessa árvore que pinta. O filme não tem história, não no sentido tradicional, mas é épico, intimista, tem humor, drama… É maravilhoso! E a cor! No caso de ‘O Segundo Rosto’, o que impressiona é o rigor do preto e branco, fotografia de James Wong Howe. E o Rock Hudson, que todo mundo achava canastra, sabia ser um p… ator! O filme trata deste empresário de meia idade, insatisfeito da vida, que faz uma plástica radical, ganhando um novo rosto (e corpo). Existem cenas deste filme que são inesquecíveis – o passeio da câmera por aquele matadouro, o reencontro do herói com a ex-mulher, para todos os efeitos sua ‘viúva’. Frankenheimer teve sua fase de grande diretor. Pena que depois ele tenha perdido a mão – acho uma falta de gosto eu escrever isso, mesmo metaforicamente. Mas eu adorava Frankenheimer – ‘O Anjo Violento’, ‘Sob o Domínio do Mal’, ‘O Segundo Rosto’, ‘Grand Prix’, ‘O Homem de Kiev’, ‘Os Para-quedistas Estão Chegando’, ‘O Pecado de Um Xerife’… Espero repassar tudo isso depois de (re)ver ‘Seconds’. Mauro Brider, foste tu, não?, me pergunta como se chama o western de Anthony Mann com Henry Fonda? ‘The Tin Star’, a estrela de lata (do xerife), virou ‘O Homem dos Olhos Frios’ no Brasil. Fui ao Dicionário de Cinema de Jean Tulard para transcrever o que ele escreve – ‘A abertura de O Homem deos Olhos Ferios é um modelo. Fonda, impasspível, atravessa uma cidadezinha sob o olhar aterrortizado de seus habitantes. A câmera enquadra o segundo cavalo que Fonda puxa pelas rédeas. Sobre o cavalo, um saco que continha um cadáver que será colocado por Fonda diante da delegacia do xerife. Em alguns planos, tudo pode ser visto – o cenário, os personagens e o tema.’ Agora, acrescento eu – ‘O Homem dos Olhos Frios’ é de 1957. Dois anos depois, Henry Fonda, de novo, empunhou a pistola para fazer outro matador, em ‘Warlock’ (O Revólver É Minha Lei), de Edward Dmytryk. Quando Sergio Leone, anos mais tarde, fez dele o assassino frio e implacável de ‘Era Uma Vez no Oeste’, na verdade não estava inventando nada. O lado sombrio do ‘mocinho’ já havia sido definido antes por Mann e Dmytryk, com o mesmo Henry, pai de Jane Fonda.

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