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Luiz Carlos Merten

07 Junho 2010 | 13h10

Confesso que ando pensando, angustiado, no que escrever sobre ‘O Profeta’, de Jacques Audiard, quando o filme estrear. O virtuosismo do filme é um escândalo. E os atores! Tahar Rahim, Adel Benchérif, para não falar de Niels Arestrup, cada um melhor do que o outro. Gostei demais do Adel, com quem fiz uma bela entrevista, no Rio. Ele veio da periferia, conheceu a cadeia (de dentro) e me falou com toda honestidade sobre como a sociedade francesa é racista. Contou como é estranho adquirir projeção – seus amigos de ontem têm hoje um olhar diferenciado sobre ele, que escapou ao círculo de opressão dos ‘arabes’ na França. Mas ele se pergunta – escapou mesmo? Quer escapar? Benchérif quer fazer seu trabalho, ser reconhecido, mas quer permanecer fiel a suas origens. Por que estou escrevendo isso? Em resposta ao Jairo, que ficou com vontade de aplaudir, ao ver o poderoso filme de Jacques Audiard. Conversei sobre ele – o filme – com alguns diretores franceses, durante o Festival Varilux. Todos destacam o virtuosismo de Audiard, mas um me fez, em off, objeções ao roteiro e outro não encontra explicação para o bicho que invade a estrada. Aliás, até agora não respondi à leitora que foi ver ‘Belle Toujous’ e me pediu explicação para aquele galo – ou galinha? – na última cena. Manoel de Oliveira dialoga com Buñuel em vários momentos de sua carreira, não apenas no ‘Belle Toujours’, que remete a ‘Bela da Tarde’. Me pergunto se esse final com a ave, independentemente de um ‘significado’, não será outra remissão? ‘O Anjo Exterminador’ terminava com aquelas ovelhas, lembram-se? Sobre o ‘Robin Hood’ de Ridley Scott, confesso que gosto do filme, mas gosto por seu caráter de ‘prequel’, terminando onde, ou quando, começam as demais versões da história do herói. Não gostaria de ver uma sequência, que acredito que Ridley Scott não faria. Ele está empenhado atualmente em outra prequel, a de ‘Alien, o Oitavo Passageiro’, que realizou, senão me engano, em 1979. É impressionante como o tempo passa – há 31 anos! Marcelo Magalhães gostou deste ‘Robin Hood’, mas seu preferido é o de Kevin Reynolds, com Kevin Costner. O próprio Ridley Scott deve concordar, porque rouba, na cara dura, o plano, ou efeito, do voo da flecha. Lembro-me que quando ‘Robin Hood, Príncipe dos Ladrões’ estreou, em 1991, vários coleguinhas, os mais velhos,  fizeram comparações depreciativas com o Robin de Errol Flynn, 50 e tantos anos antes. Mesmo adorando a dupla clássico Errol Flynn/Olivia De Havilland, não creio que o ‘Robin Hood’ de Michael Curtiz e William Keighley seja tão melhor. O que menos gosto na versão dos dois Kevins, pelo menos na lembrança, é da Lady Marian de Mary Elizabeth Mastrantonio. Gosto da atriz – acho-a ótima em ‘O Segredo do Abismo’, de James Cameron -, mas na época fiquei siderado pela Lady Marian de Uma Thurman, na versão de John Irvin (Patrick Bergin foi, ou é, o pior Robin), e se for contar todas tenho um encanto particular pela heroína envelhecida e amargurada que Audrey Hepburn criou para Richard Lester, em 1976. Fui procurar agora a data no guia de filmes de Leonard Maltin e ele não tem o filme em muito boa cotação. Diz que o roteiro ‘revisionista’ de James Goldman destitui os adorados personagens de sua mágica e acrescenta que o filme de Richard Lester é arido e pouco envolvente. Não assino em baixo de  nada disso. Amo o revisionismo de Goldman/Lester, por mais que me divirta e até emocione com Errol Flynn, Kevin Costner e Russell Crowe.