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Luiz Carlos Merten

02 Julho 2007 | 08h42

Havia visto Eva Wilma no palco em Querida Mamãe, de Maria Adelaide Amaral. Não conhecia Othon Bastos do teatro e é uma lacuna na minha vida – já entrevistei meio-mundo no cinema brasileiro e nunca falei com Othon, a quem não sei se admiro mais como Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol ou se no outro filme do Gláuber, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Permitam-me falar dos dois. Era garoto, em Porto Alegre, por volta de 1960. A TV estava engatinhando no Sul. Pertencia ao grupo dos Diários e Emissoras Associados de Assis Chateaubriand. Chamava-se TV Piratini. Hebe Camargo ia todas as semanas apresentar ao vivo um programa de música. Ainda não era entrevistadora, não tinha inventado seu sofá. Hebe cantava (médio). Começava sempre por ‘Quem É?’ É incrível, mas, por causa dela, até hoje me lembro da letra – “Quem é? Que te cobre de beijos? Satisfaz teus desejos? E que muito te quer…’ Saía Hebe Camargo e entravam Eva Wilma e John Herbert como o casal de Alô, Doçura, uma sitcom brasileira no estilo americano. Devo admitir que devo muito a Eva Wilma. É uma atriz que marcou a TV, o cinema e o teatro brasileiros. Na TV, começou no Alô Doçura e galgou papéis cada vez mais importantes nas novelas da Globo. No cinema, participou de dois clássicos no começo dos anos 60 – Cidade Ameaçada, de Roberto Farias, e São Paulo S.A., de Luiz Sérgio Person. Grande Eva. Até onde me lembro, nunca protagonizou um papel de escândalo, nunca ficou nua, nunca ofendeu a mãe de ninguém. Parecia inseparável de John Herbert, mas se divorciaram e ela se casou com Carlos Zara, a quem acompanhou até à morte. Sempre discreta e eficiente. Devo-lhe belas emoções em todos os meios. A de ontem, em O Manifesto, foi mais uma. Quanto a Othon, alguém consegue imaginar a história do cinema brasileiro sem aquele rodopio que ele dá, como Corisco, diante da câmera de Glauber? Te entrega, Corisco. Eu não me entrego não… Dou-me conta de que não sei nada da vida privada de Othon Bastos. Não precisa. Para mim, ele é só o ator. Só? Um grande ator brasileiro. Gostaria que esse texto fosse lido como um manifesto de amor à arte de Eva, de Othon. Eles ficam mais dois finais de semana no Renaissance. Poderá sair caro, mas com certeza não será perda de tempo, nem de dinheiro.

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