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Luiz Carlos Merten

06 Março 2007 | 12h34

Recado especial para a Cláudia, que ficou com tanta vontade de ver Eva. Ganhei meu dia, porque Losey é um dos diretores que mais admiro e sempre vi com tristeza o fato de ele ser tão pouco conhecido. Ajudar a divulgar o Losey é tudo que quero. Seus grandes filmes contam-se entre os maiores do cinema, mas poucos foram lançados em DVD no Brasil – O Menino dos Cabelos Verdes, pela Aurora; O Criado, pela Universal; acho que o Cidadão Klein; e mais algum que estou esquecendo. Mas ele fez também Entrevista com a Morte, Eva, Modesty Blaise (a 007 de saias, com Monica Vitti), Estranho Acidente, Cerimônia Secreta, O Mensageiro do Amor, Casa de Bonecas (com Jane Fonda como Nora), A Inglesa Romântica e o deslumbrante Don Giovanni, que é o maior de todos os filmes de ópera. Losey tinha o projeto de adaptar Em Busca do Tempo Perdido, cujo roteiro foi escrito por Harold Pinter. saiu publicado e pode ser comparado com o de Luchino Visconti, em parceria com Suso Cecchi D’Amico. É curioso como os dois inviabilizaram seus projetos, porque seriam filmes caros, que estavam sendo propostos simultaneamente e até quem se dispunha a investir uma fortuna vacilava entre qual deles apoiar – Luchino parecia mais proustiano, mas Joseph foi rigoroso ao filmar o tempo perdido (e reencontrado) de O Mensageiro, que, por sinal, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, no ano em que Morte em Veneza recebeu u m prêmio especial, em homenagem aos 25 anos do maior festival do mundo. Os dois compartilharam atores (Dirk Bogarde e Helmut Berger), o amor pelo teatro e pela ópera e até o gosto pelo barroco, mas eram diferentes em tudo. Visconti, descendente de aristocratas, comunista por escolha ideológica. Losey, vindo da classe média (era filho de advogado) e marxista. Todos os filmes do Losey com Harold Pinter tratam da troca de papéis sociais, sendo o caso mais notável o de O Criado, em que Dirk Bogarde termina por subverter a vida do patrão. Mas é interessante como, a despeito do marxismo do autor, que o fez entrar para a lista negra do macarthismo, o choque dos indivíduos se superpõe à luta de classes em seu cinema.
Outro recado, para o Cristiano. Quando vires o 300 ficará mais fácil perceber porque tenho falado tanto do filme como experiência visual, sem entrar em detalhes quanto á direção e à interpretação. Na entrevista que me deu em Berlim, Rodrigo Santoro, que faz ‘Sércsis’, disse que teve um trabalhão imenso com toda aquela maquiagem e, principalmente, representando contra um fundo azul, porque não há uma cena dele que não tenha sido digitalizada. Aliás, todo o filme foi, para atingir aquele look. Então, é difícil falar em interpretação. Quanto à direção – é um filme de autor. Zach Snyder estabeleceu todo um conceito dramático e visual para colocar a tela a graphic novel do Frank Miller. Logo no começo, a morte do mensageiro de Xerxes já deixa claro que filme será 300. Aguardem, que eu acho que a discussão será boa.